Brasília, 10 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso enfrentará na próxima semana o primeiro teste no Congresso, após ter exigido união e apoio dos partidos da base do governo. A Câmara deverá votar um recurso que poderá trazer de volta à pauta o projeto destinado a abater 40% das dívidas dos proprietários rurais, mote da mobilização que trouxe à Esplanada dos Ministérios alguns milhares de produtores rurais com os tratores, às vésperas de um protesto organizado pela oposição, a Marcha dos Cem Mil. A votação foi adiada pelas últimas três semanas, à espera do esvaziamento da manifestação e da desmobilização da bancada ruralista no Congresso, e, agora, o governo espera que a base de sustentação rejeite o recurso, evitando o desgaste do veto prometido pelo presidente.
"Vamos para o voto", prometeu hoje o líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP). "Queríamos possibilitar um processo de entendimento, mas não foi possível", admitiu. O esforço de mobilização da bancada governista continua na terça-feira (14), mas Madeira prevê que o recurso seja votado na quarta-feira (15). O deputado tucano aposta numa vitória do governo, lembrando que o projeto foi considerado inconstitucional pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
O deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO), principal líder da bancada ruralista no Congresso e um dos articuladores da manifestação que parou Brasília, avisa que haverá contra-ataque e que a votação não está garantida. Ele promete levar novamente ao Congresso lideranças rurais e "formadores de opinião". "A bancada não desanimou; o governo obstruiu a pauta e veio com tentativas de proscratinar a discussão", disse Caiado, citando a proposta de criação de uma comissão especial para discutir a questão do endividamento dos produtores rurais. "Vamos para o voto." Operadores políticos do governo acreditam no apoio das bancadas do PFL e do PSDB, mas ainda temem por defecções entre setores do PMDB, mais afinados com o discurso ruralista. O líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), não está preocupado. "A maioria acompanhará a decisão já tomada pela CCJ", afirmou.
Ele considera que o período sem votações foi fundamental para "tirar a paixão" em torno do tema. "Além disso, o governo tomou várias atitudes, inclusive criando a comissão, para tratar dos problemas dos proprietários rurais", disse.
Para desobstruir a pauta, a Câmara deverá votar, em primeiro lugar, o projeto de lei de organização da Defensoria Pública, que tem urgência.
Em seguida, vem o recurso em favor da bancada ruralista. Se tiver sucesso no primeiro teste, o governo tentará acelerar a votação de outros projetos importantes, como medidas de regulamentação da reforma da Previdência, a Lei de Responsabilidade Fiscal. Também interessa ao governo dar andamento à reforma tributária, ao Orçamento e ao Plano Plurianual de Investimentos (PPA).

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