Brasília, 13 (AE) - A Câmara vai gastar este ano cerca de US$ 558 mil ou mais de R$ 1 milhão para custear viagens de parlamentares em missões diplomáticas ao exterior. No total, serão 19 missões para países como China, Inglaterra, Estados Unidos e Marrocos, com diárias de US$ 300, pagas ao parlamentar mesmo quando as despesas são custeadas pelo País anfitrião. Até agora, 18 delas já foram cumpridas. O montante gasto com essas viagens é suficiente, por exemplo, para pagar os salários de cerca de 139 deputados e cobrir parte dos gastos que serão impostos pela provável convocação extraordinária que o governo será obrigado a fazer para garantir a votação de projetos de seu interesse que permaneceram parados durante todo o ano legislativo.
Nessa maratona de viagens, 75 parlamentares se ausentaram da Câmara por 97 dias, se forem somados os períodos das diferentes missões. Algumas delas, como a realizada em outubro para o acompanhamento de sessões promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, duraram até 14 dias. As missões internacionais são frequentes no cotidiano dos políticos e constam inclusive no Repertório Biográfico dos Deputados, livro que compila os currículos dos parlamentares, publicado pela Casa.
Em levantamento feito pela Agência Estado, com base na média de preços de passagens aéreas em classe executiva, a Câmara teria gasto o equivalente a US$ 300 mil no transporte dos integrantes dessas missões.
Em hospedagem, considerando o gasto aleatório de US$ 100 por dia, o desembolso mínimo alcançaria US$ 31,1 mil. Só em diárias, os deputados ganharam US$ 223,5 mil. A relação dos parlamentares que integraram essas viagens ao exterior foi obtida junto à assessoria de imprensa da presidência da Câmara.
Para o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), os custos se justificam. "É importante manter inter-relações parlamentares, para acompanhamento de questões de interesse do País", argumentou. "Dedico parte da minha semana atendendo a parlamentares de missões estrangeiras", ressaltou, citando, entre outras, missão enviada pela Polônia. "As missões têm significação", sustentou o presidente da Câmara. Ele próprio integrou, este ano, três missões oficiais: esteve em Lisboa, em junho, onde se reuniu com outros presidentes de parlamentos íbero-americanos. Também visitou Montevidéu, no mesmo mês. Em outubro, o presidente da Câmara esteve no Marrocos por quatro dias para o encontro do comitê preparatório da conferência anual de presidentes de Parlamento.
A Agência Estado também solicitou à 3.ª Secretaria da Câmara a lista de deputados que viajaram ao exterior por motivos particulares, mas a divulgação foi negada. Segundo o artigo 228 do regimento da Casa, o parlamentar é obrigado a informar à Mesa que está viajando para fora do País, para onde vai e por qual motivo quando não cumpre agenda oficial.
De acordo com o 3.º secretário, deputado Jaques Wagner (PT-BA), a lista não foi fornecida por decisão da presidência da Câmara, por se tratar de uma questão de "foro íntimo".
Irritados - Embora as missões oficiais dos parlamentares ao exterior sejam custeadas com dinheiro público para defender interesses do País, parlamentares ouvidos pela Agência Estado irritaram-se quando foram questionados sobre as viagens. "Você sabia que eu sou presidente da comissão de Relações Exteriores?", reagiu, indignado, o deputado Antônio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), que logo estará com as malas prontas em direção à Seattle (EUA), para participar da III Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), no final deste mês. "Informe-se sobre mim, leia minha biografia antes de falar comigo", exigiu o deputado tucano antes de desligar o telefone, encerrando a tentativa de entrevista. Pannunzio deverá embarcar para os Estados Unidos com mais seis colegas, entre eles o ruralista Ronaldo Caiado (PFL-GO) e o petista Paulo Delgado (MG). O líder do PMDB na Câmara, deputado Geddel Vieira Lima (BA), viajou em missão oficial duas vezes este ano. Foi a Lisboa junto com Temer e outros cinco colegas, em junho. Depois foi a Nova York, em outubro, onde passou oito dias assistindo às sessões da ONU. "Esse encontro ocorre todo o ano e é quando os parlamentares brasileiros têm a oportunidade de observar assembléias da ONU e discutir temas importantes, como o meio ambiente e o Timor Leste", explicou o líder pemedebista, que não é reconhecido por atuar nessas áreas de interesse.
Perguntado sobre quanto teria recebido em diárias, o deputado baiano preferiu não responder. "Eu não sei, pergunta para o Itamaraty", desconversou, indicando o Ministério das Relações Exteriores. Ao Estado, a assessoria do Itamaraty informou que o ministério não fixa nem paga o valor das diárias recebidas pelos parlamentares em missão, limitando-se a informar os eventos que serão realizados.

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