Câmara quer dobrar o salário do presidente dos Estados Unidos Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 16 (AE) - A bonança econômica que os Estados Unidos vivem há oito anos, que ajudou a transformar os déficits do orçamento federal norte-americano dos últimos 30 anos em saldos fiscais pelo futuro previsível, poderá levar a um aumento generalizado dos salários do setor público se o Congresso aprovar uma proposta para dobrar o salário anual do presidente dos Estados Unidos.
A medida, que foi incluída na semana passada pelos líderes republicanos num projeto de lei de dotação orçamentária em discussão na Câmara de Representantes, elevaria a remuneração do líder os EUA para US$ 400 mil por ano.
O atual salário do chefe do governo dos EUA, de US$ 200 mil brutos por ano, não é reajustado há trinta anos. O presidente recebe também uma verba de representação de US$ 50 mil anuais e todas as mordomias para desempenhar a função, que incluem mordomos e vasta criadagem, comida, roupa lavada e moradia de graça, na Casa Branca, jumbos, helicópteros e limusines à prova de bala para suas viagens e deslocamentos em Washington, além da proteção permanente do Serviço Secreto.
O argumento técnico para justificar o aumento é que o vice-presidente, o presidente da Suprema Corte e o presidente da Câmara de Representantes, que vem logo abaixo do presidente da República na escala salarial, recebem reajustes periódicos para compensar o aumento do custo de vida.
Mantida a tendência dos anos recentes, o vice-presidente e os chefes do poder judiciário e legislativo passarão a ganhar mais do que o presidente em 2004, se o atual salário do chefe do governo for mantido.
Aumentar o salários de ocupantes de cargos eletivos nos Estados Unidos é impopular e politicamente arriscado. Na última vez que reajustaram seus próprios salários - hoje em US$ 136.700 por ano - , os deputados e senadores recorreram a várias expedientes parlamentares para distanciar-se da decisão e apresentá-la como uma medida automática do próprio processo legislativo.
Como o salário do presidente é teto da remuneração do setor público, o reajuste proposto abriria o caminho para aumentos em todas as instâncias do governo federal, que paga hoje um salário médio de US$ 2.800 por mês a cerca de 2,5 milhões de funcionários.
Com democratas e republicanos aparentemente prestes a escolher como candidatos à Casa Branca os atuais favoritos - o vice-presidente Albert Gore e o governador do Texas, George W. Bush, respectivamente - os líderes republicanos acreditam que este é um momento único para mexer no salário do presidente sem transformar o assunto em tema da campanha eleitoral.
Se a mudança não for feita agora, a próxima oportunidade surgirá somente em 2004, pois, pela constituição norte-americana
o aumento de salário não pode ser efetivado pelo presidente que o sancionou. A Casa Branca não se pronunciou sobre a iniciativa, que não teria efeito para Clinton, mas apenas para seu sucessor.
O diretor do programa de assuntos governamentais da Fundação Brookings, Thomas E. Mann, defendeu o aumento. "É importante não presumir que o presidente será financeiramente independente e rico e que, por isso, o salário é irrelevante", disse Mann ao Washington Post.
"Não creio que devamos aspirar por um modelo salarial de um dólar por ano ou de US$ 200 mil por ano. A presidência dos EUA é o posto mais importante do país e, possivelmente, no mundo, e simplesmente não há nenhuma razão plausível para deixá-lo num nível que não compensa pelos estragos da inflação nos últimos 30 anos."
Atualmente, os líderes de Cingapura, Hong Kong e da Suíça ganham mais do que o presidente dos EUA. Dez anos atrás, uma comissão especial recomendou que o presidente passasse a ganhar US$ 350 mil por ano. O reajuste maior agora proposto será debatido em audiência pública na subcomissão de reforma administrativa da Câmara na semana que vem.





