A Câmara abriu ontem uma sindicância para apurar se houve quebra do decoro parlamentar dos deputados Talvane Albuquerque (PFL-AL) e Augusto Farias (PFL-AL). Albuquerque será investigado pelo suposto envolvimento no assassinato em Maceió da deputada Ceci Cunha (PSDB-SP), morta no dia 16, de quem é suplente na próxima legislatura, e também por estar sendo acusado por Farias de ter contratado um pistoleiro para o matar, com a intenção de ficar com a vaga na Câmara.
A suspeita foi levantada com base em conversas gravadas por Farias, que será investigado por causa da escuta clandestina. Depois de ameaçar com a renúncia ao mandato, Albuquerque entregou ontem ao líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), uma carta de desfiliação. É uma tentativa de escapar da cassação, cujo processo foi instaurado e deverá caminhar a passos rápidos no Congresso. A Polícia Federal (PF) aguarda apenas a quebra da imunidade parlamentar para o indiciar como autor intelectual do crime. A desfiliação, entretanto, não lhe preserva da perda do mandato e dos direitos políticos.
Albuquerque também pediu ao corregedor-geral da Câmara, Severino Cavalcanti (PPB-PE), a quebra do próprio sigilo bancário e telefônico e dos de outras personalidades que, na avaliação dele, teriam interesse na morte da deputada: Farias, o ex-governador de Alagoas Manoel Gomes de Barros (PTB) e o pistoleiro Maurício Guedes, mais conhecido como ‘‘Chapéu de Couro’’.
Com um prazo de 15 dias para dar parecer sobre a conduta dos parlamentares, a comissão da Câmara vai investigar se existiu algum relacionamento entre Albuquerque e ‘‘Chapéu de Couro’’, com quem conversa nos diálogos apresentados por Farias, nos quais, supostamente, estariam negociando a execução dele. O pistoleiro é apontado como o suposto autor dos disparos que matou a deputada e membros da família dela. Em uma das gravações, Albuquerque saúda ‘‘Chapéu de Couro’’ como ‘‘meu amigo’’.
Ontem, Farias entregou uma fita com a gravação das conversas ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP). A autenticidade do material será analisada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo. Após entregar a fita, o deputado afirmou ter 100% de certeza de que Albuquerque pretendia mandar matá-lo. ‘‘Não tenho provas de que o Talvane mandou matar a Ceci, mas tenho todas as provas de que ele queria me matar’’, afirmou Farias.
O deputado afirmou não ter entregue as fitas antes porque foi orientado por um advogado de que ‘‘ameaçar não é crime’’. Segundo Farias, esse mesmo advogado teria alertado que Albuquerque poderia o processar por calúnia. ‘‘Ninguém de bom senso arruma um inimigo psicopata da qualidade do Talvane’’, disse.
Com duração de 11 minutos, as gravações, segundo Farias, foram feitas nos dias 11 e 12, em Juazeiro (BA). Foram quatro ligações feitas do escritório de um dos irmãos dele, que preferiu não identificar, nas quais o pistoleiro conseguiu falar somente uma vez - supostamente - com Albuquerque. Nas outras três vezes, disse Farias, ele conversou com um assessor do deputado, identificado apenas como Jadielson.
Na única vez em que falou com Albuquerque, explicou, não houve nenhuma alusão direta à encomenda do assassinato. Segundo Farias, foram usados ‘‘códigos’’. ‘‘Chapéu de Couro’’ diz ter contratado ‘‘3 litros de mel’’ (que segundo Farias, seriam três pistoleiros) e que estaria tudo certo para o ‘‘careca’’. Farias é calvo e afirma ser ele o ‘‘careca’’.
Nos outros três telefonemas, ‘‘Chapéu de Couro’’ tenta falar com o deputado, mas só consegue conversar com Jadielson. Nessas conversas, não são usados códigos nem conversas explícitas sobre assassinatos. Apenas no terceiro telefonema ‘‘Chapéu de Couro’’ pergunta a Jadielson se ele fez o ‘‘levantamento’’. Segundo Farias, o ‘‘levantamento’’ seria um rastreamento dos deslocamentos diários dele.

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