São Paulo, 26 (AE) - O cheiro de maconha estava em diversos pontos da Associação Atlética Oswaldo Cruz. Os calouros eram forçados a beber cachaça e cerveja. Todos foram obrigados a sentar-se na arquibancada enquanto os veteranos gritavam "piscina, piscina". Um grupo de calouros foi jogado na água. Os veteranos pisavam nas mãos daqueles que tentavam agarrar-se à borda para sair.
Nenhum dos quatro estudantes ouvidos hoje (26) pela polícia - três garotas e um rapaz - disse ter visto Edison Tsung-Chi Hsueh
de 22 anos, na água. Uma das estudantes contou ter permanecido amarrada com um barbante no pulso no mesmo grupo de Hsueh. "Fomos desamarrados na associação e não vi mais o Edison."
Esses são trechos dos depoimentos prestados hoje por alunos do primeiro ano da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) participantes do trote de 22 de fevereiro, quando Hsueh morreu. O corpo foi achado no fundo da piscina na manhã seguinte. Os estudantes pediram à polícia que não revelasse seus nomes. À saída do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), negaram-se a falar com a imprensa.
Já foram ouvidos 110 estudantes, entre calouros e veteranos, e dois vigilantes. Apenas cinco contaram ter visto Hsueh no dia do trote. Nenhum deles viu o rapaz na piscina.
O delegado Marcelo Damas espera que algum calouro decida contar o que realmente ocorreu durante o trote. Para ele, se uma testemunha contar que viu Hsueh ser jogado na piscina é o suficiente para chamar os veteranos para ser submetidos a reconhecimento.
Cauteloso, Damas disse que pode ter ocorrido um homicídio. "Não tenho provas, mas a hipótese é grande." A promotora Eliana Passarelli não tem dúvida. "Houve homicídio culposo." Ela acha impossível ninguém ter visto Hsueh entrar ou ser jogado na piscina. "Os estudantes estão com medo de falar e acho absurda a hipótese de que o rapaz se afogou porque não sabia nadar."
Eliana espera cópia parcial do relatório da sindicância da direção da Faculdade de Medicina, que aponta sete veteranos como responsáveis pelos excessos durante o trote. "Vamos ouvi-los por último."
Violentos - A polícia investiga os veteranos apelidados de Ceará, Alemão, Campanha e Japonês, que teriam aplicado muita violência no trote. À exceção de Campanha, denunciado por telefonema anônimo, os demais foram apontados pelas cartas escritas pelos calouros não identificados à diretoria da faculdade.
A promotora continua procurando por calouros e veteranos na listagem com 4 mil nomes entregue a ela pelo Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas (HC). A pesquisa é feita com os nomes dos 1.082 estudantes da Faculdade de Medicina. Eliana revelou já ter encontrado os nomes de dois veteranos. Eles deram entrada no hospital no dia 22 de fevereiro, quando Hsueh morreu. Um tinha ferimento no rosto e o outro apresentava mal-estar. Os dois serão chamados para depor.
Abuso - Uma das calouras ouvidas hoje informou que um grupo de veteranos tentou abusar dela e de outra colega junto à piscina. Fizeram uma roda em volta da duas, passaram a cantar músicas da associação e encostavam seus corpos nas duas. A moça reclamou e foi jogada na piscina. Amanhã, mais quatro estudantes serão ouvidos.

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