São Paulo, 20 (AE) - "Eu tive os pulsos amarrados com barbante e fiquei ao lado do Edison por um bom tempo. Éramos um grupo de calouros amarrados, todos pelo pulso, e fomos levados até o lugar do churrasco. Ali fomos desamarrados e foi a última vez que vi o Edison."
Esse é o trecho do depoimento de um calouro, F.I., ouvido hoje pelo delegado Marcelo Damas, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O policial que preside o inquérito sobre a morte de Edison Tsung Chi Hsueh, de 22 anos, ocorrida durante o trote nas dependências da Associação Recreativa Oswaldo Cruz dos alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, ouviu F. e W. , outro calouro.
F. informou ainda ao delegado que se lembrou de ter perguntado a hora para Hsueh. "Eram 10 horas e não lembro de ter visto mais o Edison." O calouro afirmou não ter presenciado trote violento. Contou ter bebido muito e lembrou que estava no galpão conhecido por Caveirinha, onde dormiu. Acordou às 21 horas no outro galpão, chamado pelos estudantes de Caveirão.
O calouro não soube dizer ao delegado Damas como chegou ao segundo local. Dali foi embora e não viu nada de anormal nas outras dependências da associação. W. também disse em seu depoimento que o trote não foi violento. Adiantou ao policial que ficou com medo de morrer afogado. Não sabe nadar, bebeu muita água na piscina e declarou que ele e outros calouros foram jogados pelos veteranos. "Eu subi e desci várias vezes e consegui com dificuldade sair da piscina." A polícia marcou para quinta-feira o depoimento de mais dois calouros. Os veteranos serão chamados para depor somente no fim do inquérito.
Lista - A promotora Eliana Passarelli, que tem acompanhado o trabalho da polícia, esteve no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa. Contou estar de posse de uma lista com 1.073 nomes de alunos da Universidade de São Paulo, a maioria do curso de medicina. Com a listagem a ser entregue pelo Hospital das Clínicas ela pretende identificar os estudantes, calouros e veteranos que entraram quase em coma alcoólica no Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas.
A Telefônica ainda não encaminhou à polícia todos os números dos telefones de alunos solicitados pelo Ministério Público. O rastreamento tem como objetivo identificar o aluno que na madrugada do trote telefonou para a associação perguntando aos vigilantes se tudo estava bem e se não havia nenhuma anormalidade.
Hoje a mãe de Edison, Hsueh Yen Yn Hwa, esteve conversando com o delegado Damas e reconheceu o par de óculos encontrado na piscina da associação no dia seguinte ao encontro do corpo do calouro. Ela mostrou um pequeno detalhe: a solda na junta. Os óculos sempre davam problemas e o estudante "vivia" soldando. Hsueh acredita que o filho tenha sido jogado na piscina e ali perdeu os óculos. "Ele não se separava dos óculos
porque não enxergava direito", afirmou. A mãe do calouro repetiu hoje que a família espera por justiça e os autores do "assassinato" de seu filho devem ser identificados e presos.

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