Caloros e veteranos da Santa Casa alimentam moradores de rua em um trote diferente
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000
Por Fabiana Gitsio 
São Paulo, 17 (AE) - Era um dia qualquer na vida do morador de rua Carlos Alberto Santos, de 47 anos. Ele, que sobrevive fazendo bicos como guardador de carros, bebia cachaça embaixo de um viaduto. Até que recebeu um convite: quer almoçar? Santos não pensou duas vezes. Uma farta macarronada o esperava. Foi a maneira que os veteranos da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo encontraram para recepcionar os calouros. Hoje, os mais velhos fizeram a pasta e os novatos viraram garçons e garçonetes.
"Foi um anjo que me trouxe até aqui e desejo prosperidade para todos eles", dizia Santos, diante da caloura Luciana Utsunomiya, autora do convite que mudou sua rotina, vários pratos de macarrão e muitos copos de refrigerante depois, todo à vontade no Centro do Serviço Social da Paróquia Santa Cecília, na região central. Depois, Santos emendou imitações do Chacrinha - alô, calouros -, não sem antes dizer que considerava aquele o melhor trote de todos, por beneficiar tanto quem precisa como os próprios estudantes.
"O cara morreu na piscina e até hoje ninguém sabe quem foi", afirmou, referindo-se ao caso de Edison Tsung Chi Hsueh, cujo corpo foi encontrado boiando após as comemorações da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), no ano passado.
Mais humano - Segundo o presidente do centro acadêmico, Rômulo Negrini, a idéia de um trote mais humano começou a ganhar força na instituição após 1998, ano em que as brincadeiras foram degradantes e resultaram numa suspensão das aulas por três dias. Em 1999, a imagem da faculdade também seria arranhada, desta vez pelo sextanista Mateus da Costa Meira, o franco-atirador do cinema do MorumbiShopping.
Luciana, o "anjo" de Santos, contou que a idéia era que os novatos apenas servissem os mendigos e moradores de rua. O problema é que na chegada à paróquia, só havia um deles. Assim
os 60 calouros tiveram de dar um giro nas redondezas. Na véspera, ela e os colegas passaram por um trote mais tradicional - que Luciana considerou até leve demais. Nada que se comparasse à experiência de hoje. "Amei fazer esse trabalho", afirmou. "O estudante fica sempre muito distante da comunidade".
Depois de fartar-se com aquela comida toda - foram 100 quilos de espaguete -, Germano Correia da Silva, de 67 anos, ajoelhou-se diante da imagem de Santa Clara. Chorando, garantiu pertencer a uma das famílias mais ricas do município pernambucano de Exu. "Nunca imaginava que um dia estaria nessa situação".
O casal Cícero Domingos da Silva, de 50 anos, e Ana Pereira, de 60, que mora atrás da igreja, também era só gratidão. "Se não fossem eles, hoje eu não iria comer", disse Ana. "É a coisa mais linda que vi na vida", emendou Silva. Na despedida, a frase que os estudantes mais ouviam dos convidados era: "A gente se vê por aí".


