Califórnia ilustra os problemas de Bush e os riscos de Gore Do correspondente PAULO SOTERO
Califórnia ilustra os problemas de Bush e os riscos de Gore Do correspondente PAULO SOTERO7/Mar, 16:49 Los Angeles, 07 (AE) - Em 1992, uma mistura de casuísmo com o desejo de republicanos moderados de limitar o poder da ala direita de seu partido na Califórnia levou à aprovação, em referendo popular, de uma abertura do processo das eleições primárias no estado mais populoso e politicamente importante dos Estados Unidos. A mudança ameaça agora complicar a decolagem da candidatura do governador do Texas, George W. Bush, à Casa Branca. De acordo com as últimas sondagens antes do pleito de hoje, Bush parecia ter evitado o pior, que seria perder a briga pelo voto popular para seu principal desafiante, o senador John McCain, do Arizona, mas mesmo assim vencer a disputa pelos 162 delegados do estado à convenção nacional do partido que oficializará a nomeação do candidato à presidência, em agosto. "Mas, mesmo que Bush ganhe de McCain na votação popular, as manchetes dos jornais de quarta-feira dirão que ele chegou em segundo, atrás do (vice-presidente Albert) Gore, que deve vencer facilmente", disse Sherry Bebitch Jeffe, professora de Ciência Política da Escola de Pós-Graduação da Universidade de Claremont e colunista do Los Angeles Times. "A derrota na eleição popular na Califórnia sublinhará para os eleitores em todo o país a vulnerabilidade política Bush, que McCain expôs nas primárias", disse ela. "O sistema que a Califórnia adotou nas primárias transformou as eleições numa espécie de prévia do voto popular nacional na eleição presidencial de novembro e, hoje, isso funciona contra os cálculos dos republicanos, que brigaram pela mudança", acrescentou. No sistema tradicional, que é usado na maioria dos demais estados, o eleitor manifestava suas preferências apenas pelos candidatos de seu próprio partido. O novo sistema, mais democrático e menos previsível, permite que um eleitor republicano, por exemplo, vote por um pretendente democrata à presidência e por um concorrente à candidatura de seu próprio partido a deputado federal. Mas o cálculo dos delegados à convenção nacional é feito com base apenas nos votos dos eleitores registrados em cada partido. Quem receber mais votos dos eleitores de seu partido leva a totalidade dos delegados. O novo sistema ajudou a enterrar a candidatura do ex-vice- governador republicano Dan Langdrum na disputa do governo com o democrata Gray Davis, dois anos atrás. Langdrum padecia de um problema político do qual Bush está livre, ou seja, a associação com o ex-governador Pete Wilson, que comprometeu a posição dos conservadores na Califórnia por muitos anos mobilizando a ira e o voto contrário dos hispânicos, até então dormente, com várias iniciativas antiimigração. "Mas a virada que Bush deu para a direita durante as primárias para responder à ameaça de McCain não o ajudarão na Califórnia", disse Sherry Bebitch Jeffe. "E isso é uma grande ironia, pois os republicanos da Califórnia estiveram entre os primeiros a correr para Austin (a capital do Texas) para convencer Bush a disputar a presidência, porque viam nele um governador jovem, moderado, pragmático, com boa aceitação entre os latinos e capaz de ajudar a tirá-los do buraco em que eles próprios se meteram graças à estreiteza mental e à ruindade de espírito dos líderes republicanos neste estado durante o governo de Pete Wilson". O próprio Bush referiu-se ao problema num discurso que fez num hangar do aeroporto de Long Beach, na noite de segunda-feira, antes de voltar para Austin, onde aguardaria o resultado das 13 primárias republicanas. "Aos deputados republicanos da Califórnia (que disputarão a reeleição, em novembro), minha mensagem é: tenham paciência, pois o socorro está a caminho", disse ele. Gore também têm problemas potenciais na Califórnia. O maior deles são as acusações de irregularidade e possíveis crimes cometidos por seus associados no trabalho de levantamento de dinheiro para as eleições de 1996. O templo budista que Gore visitou, naquele ano, para agradecer contribuições irregulares arrecadadas pelas monjas locais fica na região de Los Angeles. É também de Los Angeles uma ex-colaborada da campanha de Gore, Maria Hsia, que foi condenada na semana passada por um tribunal na Califórnia por sua participação no esquema de mobilização de fundos para o Partido Democrata. O fato de o Partido Democrata ter escolhido fazer sua convenção nacional em Los Angeles sugere confiança na capacidade de Gore de lidar com esses problemas. Mas os problemas não desaparecerão nos próximos meses e os problemas existem e a eles deve-se somar o que o colunista Michael Kramer, da revista New Yorker, chama de "o mau cheiro deixado por todos os escândalos da administração Clinton", da qual o vice- presidente é o herdeiro político. A favor de Bush, há o fato de ele começar a disputa com Gore certo de que contará com os votos eleitorais do terceiro e quarto maiores estados dos EUA - o próprio Texas e a Flórida, que é governada por seu irmão, Jeff - e em posição de vantagem em praticamente todos os estados do sul conservador. Mas as primárias tiraram do candidato republicano a aura de invencibilidade que ele tinha até o fim do ano passado, ajudaram Gore a afiar os dentes e definir melhor sua candidatura e tornaram o desfecho menos previsível. "Sou democrata, prefiro o Bradley ou o McCain mas não consigo me imaginar votando em Gore", disse Christie Kinskey, de 24 anos, estudante de relações internacionais da Universidade da Califórnia, depois de ouvir um discurso de John McCain. "Votarei para McCain mesmo sabendo que ele não tem chance porque quero protestar contra o fato de o meu partido escolher um idiota como candidato à presidência", disse o republicano John Strelow, de 21 anos, estudante de ciência política, que também ouviu o discurso de McCain. "Você faz uma pergunta difícil a Bush e, em lugar de responder, ele fica nervoso, porque ele não sabe nada". Emoções à parte, Sherry Bebitch Jeffe aponta para a importante mudança de cálculos entre os analistas produzida pelas primárias. "Alguns meses atrás, as pesquisas de opinião colocavam Gore mais de 20 ponto percentuais atrás de Bush", disse ela. "Hoje, vista da Califórnia, a eleição será ou muito apertada ou acabará com uma vitória folgada de Gore".





