Calheiros promete enviar equipe para investigar tráfico no AC
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quarta-feira, 19 de maio de 1999
Por Hugo Marques (especial para a AE) 
Brasília, 20 (AE) - O ministro da Justiça, Renan Calheiros, atendendo a um pedido da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, prometeu enviar nos próximos dias uma equipe de dois delegados e 15 policiais federais ao Acre para auxiliar nas investigações sobre o tráfico de drogas no Estado. O envio da missão especial da Polícia Federal (PF) foi feito a partir do depoimento do procurador da República Luiz Francisco de Souza, que apontou o envolvimento do ex-governador Orleir Cameli, do deputado Hildebrando Pascoal (PFL-AC) e de mais de 20 empresários e políticos com o narcotráfico no Estado. Por sugestão do procurador, a CPI decidiu quebrar os sigilos fiscal, bancário e telefônico das famílias Cameli e Pascoal e de mais de 20 outros envolvidos.
Souza disse que, "inexplicavelmente", o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, não quebrou os sigilos de Cameli por envolvimento em crimes no Acre. "O que me deixa indignado é que nunca foi pedida a quebra de sigilo do Cameli", disse. Souza afirmou que Brindeiro está com mais de "1,5 metro" de documentos comprovando crimes no Acre. A CPI do Narcotráfico decidiu convocar Brindeiro para depor. Num dos depoimentos, um dos traficantes que fazia parte da quadrilha diz que Pascoal trocou cocaína e maconha por votos para se eleger deputado.
Souza disse que o Acre é uma das grandes portas de entrada de drogas no Brasil e que várias grandes fortunas de políticos e empresários no Estado são decorrentes do tráfico de drogas. Acatando as sugestões do procurador, a CPI determinou que a investigação sobre o narcotráfico no Acre será feita pelo mesmo delegado que vinha levantando provas contra a máfia que seria liderada por Cameli, que é o delegado da PF Jones Ferreira Leite.
"Há depoimentos que associam o Hildebrando com o narcotráfico, o esquadrão da morte e roubo de armas e carros, que são trocados por drogas", disse Souza. A família de Pascoal
disse o procurador, possui "milhares de hectares de terras e cabeças de boi" no Acre, um patrimônio que estaria muito acima da renda familiar. O procurador disse que Cameli tem várias ligações com narcotraficantes do País. O procurador confirmou que, em 1990, a PF encontrou 66 mil pés de epadu, planta usada para fazer cocaína, numa tribo indígena, e que testemunhas disseram que o ex-governador é que forneceu as sementes.
O procurador disse que pouco foi feito para punir os grupos criminosos no Acre. Souza afirmou que o esquadrão liderado por Pascoal matou dezenas de pessoas, arrancando olhos, cortando mãos e desfigurando genitais das vítimas. "As pessoas que fizeram declarações contra o Hildebrando viraram defunto no ato", disse o procurador.
O deputado Robson Tuma (PFL-SP) considerou graves as denúncias do procurador e pediu que todo o depoimento fosse entregue à Mesa Diretora da Câmara dos Deputados para que fossem tomadas providências também na esfera do Legislativo. O presidente da CPI do Narcotráfico, Magno Malta, disse que considerou as denúncias "gravíssimas" e afirmou que, se comprovadas, poderão complicar a vida de Pascoal.
A CPI decidiu ainda que realizaria sessão secreta para convocar testemunhas que não podem se expor para não serem eliminadas por grupos criminosos do Acre. O relator da CPI, Morone Torgan (PSDB-CE), disse que, nesta sessão, seriam quebrados os sigilos bancários de várias empresas, empresários e políticos do Acre, supostamente envolvidos com o narcotráfico. A lista foi forenecida por Souza.
Serão quebrados os sigilos fiscal, telefônico e bancário da Ney Veículos e do proprietário da empresa, Ney Roque, de Abrão Silva, Acir Mendes Cunha, Raimundo Bessa, Raimundo Damasceno, João Melo, um homem conhecido como "Alemão", um piloto chamado Florindo, Ediberto de Moraes, Francisco de Souza Farias, parentes de Cameli e de Pascoal, entre outros. Será investigada ainda a Regional Táxi Aéreo e o dono da empresa, Carlos Antônio Marques.
O procurador disse que a Justiça do Acre engavetou processos envolvendo Pascoal. Tuma sugeriu que o assunto seja enviado à CPI do Judiciário para investigar eventual omissão da Justiça. Pascoal chamou Souza de "irresponsável" e autorizou a quebra do próprio sigilo bancário, quando soube que a CPI o faria. O deputado, no entanto, não abriu mão da imunidade parlamentar. A CPI enviou à PF denúncia que recebeu, envolvendo o general paraguaio Jose Tomas Centurion em suposto tráfico de armas para o Brasil e lavagem de dinheiro. Segundo a denúncia, o esquema envolve empresários brasileiros em Foz do Iguaçu (PR) e em Curitiba.


