Brasília, 27(AE) - Os ministros da Justiça, Renan Calheiros, e de Política Fundiária, Raul Jungmann, irão ao Paraná para discutir com o governador Jaime Lerner (PFL) formas de redução da violência no Estado. A decisão dos ministros foi anunciada hoje a uma comissão de parlamentares e representantes de movimentos sociais, que foi ao Ministério da Justiça denunciar assassinatos e torturas de sem-terra no Paraná e no Pará.
A Secretaria Nacional dos Direitos Humanos resolveu ainda convidar para uma reunião em Brasília os secretários de Justiça e de Segurança Pública do Paraná e do Pará para dar explicações sobre o aumento da violência nos dois Estados. Na reunião de hoje parlamentares de oposição e representantes do Movimento dos Sem-Terra (MST), da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e de outros movimentos sociais reclamaram aos ministros e ao secretário de Direitos Humanos da impunidade para os assassinos de sem-terra e sobre o suposto conluio entre governos estaduais, Judiciário, polícias e fazendeiros.
Tortura - Um dos coordenadores nacionais do MST, Gilberto Portes, entregou aos ministros uma relação de crimes, em sua maioria impunes, no Paraná e outra relação de várias lideranças "marcadas para morrer" no Pará. Gilberto disse que somente no Paraná foram assassinados 15 sem-terra durante o governo de Jaime Lerner. Além disso, afirmou Portes, há no Estado 41 sem-terra ameaçados de morte e seis foram torturados - alguns depoimentos dessas pessoas foram entregues ao ministro.
O agricultor José Duarte, de 56 anos, que participou da reunião com os ministros, disse que no dia 6 levou chutes na cabeça e foi obrigado a ficar mais de oito horas deitado no barro, durante ação da Polícia Militar do Paraná em uma reintegração de posse, na Fazenda Rio Branco, município de Querência do Norte. A reintegração foi feita à noite e vários policiais estavam com capuzes e sem as tarjas de identificação, disse o agricultor. "Quando esquentava o barro onde a gente estava deitado", disse o agricultor, "a polícia mandava mudar para um lugar onde o barro estava mais frio", disse.
Ameaças - O MST denunciou ainda que muitos sem-terra foram obrigados a comer estrume de gado. Gilberto Portes disse que várias pessoas detidas pela polícia foram ameaçadas de estupro, com pedaços de cana. Muitos trabalhadores, ainda segundo o coordenador, tiveram a cabeça mergulhada em água (simulando um afogamento) por policiais. O senador José Dirceu (PT-SP), que acompanhou a reunião, disse ter ficado assustado com o que ouviu. "São relatos estarrecedores", afirmou.
Renan Calheiros decidiu ir ao Paraná quando soube que a violência havia aumentado no Estado depois que as mesmas lideranças dos movimentos sociais foram ao Ministério da Justiça
no início do mês passado. Os sem-terra tinham pedido a Calheiros segurança para alguns líderes que estavam ameaçados de morte.
Hoje os sem-terra mostraram a Calheiros a cópia de um ofício da Polícia Militar do Paraná, em que o chefe do 8.º Batalhão da PM, major Waldir Copetti Neves, pede a prisão de Celso Anghinoni, uma das lideranças ameaçadas de morte e para a qual o próprio ministro tinha pedido proteção.

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