Brasília, 10 (AE) - O ministro da Justiça, Renan Calheiros, disse hoje que não foi convidado para a reunião de ontem (09) à noite entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e seus ministros. "Como não fui convidado, não posso fazer nenhum comentário sobre esse assunto", disse Renan, sem disfarçar seu constrangimento com o episódio. Desgastado após a briga com ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, sobre a indicação do novo titular da Polícia Federal, Calheiros não conseguiu emplacar o nome de Wantuir Jacine, que ocupava o cargo interinamente, e acertou com o presidente a indicação do delegado federal João Batista Campelo para comandar a PF. "Esse é um jogo de soma zero: todos perderam", disse. "O presidente tentou construir uma saída honrosa para todos, mas não sei se conseguiu."
A ausência de Renan Calheiros também foi notada hoje, no Palácio do Planalto, na cerimônia de criação do Ministério da Defesa e posse de seu titular, Élcio Alvares. "Renan está desconsolado", disse um partidário próximo do ministro.
Os peemedebistas reunidos num almoço, na casa do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), resolveram reagir. O próprio Temer foi encarregado de pedir um apoio mais explícito do presidente para afagar politicamente Renan Calheiros. No final da tarde, depois de um encontro com Fernando Henrique no Palácio do Planalto, Michel Temer anunciou: "O presidente vai dizer, por intermédio do seu porta-voz, que o caso está encerrado definitivamente e declarar o seu apoio ao ministro Renan Calheiros."
Foi só depois dessa conversa com Fernando Henrique que os peemedebistas ficaram mais tranquilos. "Não aguentava mais tanto boato sobre a demissão de Renan; esse assunto perdeu o controle e ficou insuportável", comentou o líder do PMDB na Câmara, deputado Geddel Vieira Lima (BA). O senador José Sarney (PMDB-AP) acabou fazendo um aleta para a necessidade do presidente em cortejar o PMDB. "Esse episódio está encerrado; agora só é preciso passar unguento", comentou o ex-presidente.
"Ele (Calheiros) foi prestigiado com uma solução conjunta do presidente", avaliou o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha. Ele negou que o puxão de orelha de Fernando Henrique numa reunião com alguns ministros tinha endereço certo para o titular da Justiça. "A cobrança do presidente valeu para todos; afinal ele falou em brigas e não em briga", comentou Padilha, fazendo uma referência ao desentendimento público entre os ministros Waldeck Ornélas (Previdência) e José Serra (Saúde). Eliseu Padilha garantiu que o PMDB continua firme na aliança com Fernando Henrique.
O enfraquecimento do ministro da Justiça, e sua eventual saída, significaria o enfraquecimento do PMDB. "Eu falei para o presidente: se querem o PMDB fora do governo é só tirar o Renan", ameaçou um dirigente do partido. Segundo ele, com a popularidade baixa de Fernando Henrique, a base do partido sairá coesa num eventual rompimento, e não fragmentada, como apostam cardeais tucanos. "O Renan está fazendo um sacrifício pelo partido, já que ele quis mesmo deixar o Ministério da Justiça", confidenciou esse influente peemedebista.
A fritura de Renan acabou reforçando o discurso dos oposicionistas do partido. "Isso só demonstra que o PMDB tem que romper com o governo", disparou o ex-governador Orestes Quércia. Mas foi do presidente do partido, senador Jader Barbalho (PA), a palavra conciliadora. "Política não se faz com ressentimentos", declarou.

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