Brasília, 01 (AE) - Iniciando uma nova briga pública no governo, o ministro da Justiça, Renan Calheiros, declarou hoje que há uma crise de relacionamento entre a "inteligência policial", conduzida pela Polícia Federal (PF), subordinada a ele, e a "inteligência clássica", desenvolvida pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), comandanda pelo ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso.
Calheiros destacou que existem "rusgas e tremores" entre os dois setores. "É preciso colocar o problema sobre a mesa, enfrentá-lo, e não tentar o esconder debaixo do tapete", afirmou Calheiros, ao acentuar que é preciso ter "humildade e bom senso" para solucionar os problemas. "Se nós não fizermos isso, não vamos chegar a lugar nenhum." Calheiros e Cardoso participaram de uma solenidade, no Planalto, de lançamento da política de desarmamento no País. As declarações de Calheiros foram dadas depois de o general deixar a cerimônia e assegurar que "nunca esteve demissionário" do cargo e que "não vai abandonar o barco". "Sempre fui até o fim em minhas missões e agora tenho duas: implantação do serviço de inteligência moderno
exemplar e democrático e a consolidação do Sistema Nacional Antidrogas, que tem incomodado muita gente", declarou Cardoso. O chefe da Casa Militar não quis se pronunciar, no entanto, sobre as declarações de Calheiros.
A disputa entre a Casa Militar e a PF vem se arrastando há meses e se acirrou com a decisão do presidente Fernando Henrique Cardoso de transferir o controle sobre a repressão a drogas para a Sercretaria Nacional Antidrogas, subordinada ao general. O ministro da Justiça evitou dizer que estava fazendo acusações a Alberto Cardoso. "A divergência não está subordinada a ninguém", desconversou, afirmando que tem com o general "o melhor relacionamento". Mas, logo depois, afirma: "Mas as pessoas que cobram que o ministro da Justiça influencie o inquérito são as mesmas pessoas que poderão cobrar amanhã que o ministro encoberte algum esclarecimento que eventualmente se conseguir com a conclusão do próprio inquérito." Ele avisou: "Eu não vou me prestar a esse papel." O ministro disse que a orientação dele é para ser feita uma "investigação profunda, seja qual for a direção", com o objetivo de descobrir quem fez as gravações na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), durante a privatização do Sistema Telecomunicações Brasileiras (Telebrás).
O ministro da Justiça declarou ainda que o mais indicado para permanecer à frente da PF é o diretor interino, Wantur Jacine, que "tem feito um excelente trabalho". "Para mim, falta apenas a legitimação", completou. Jacine está no cargo desde fevereiro, quando o ex-diretor Vicente Chelotti foi demitido por ter afirmado, em conversas telefônicas grampeadas por assessores dele, que tinha o presidente nas mãos, uma vez que possuía gravações de conversas de Fernando Henrique. Ao falar sobre as disputas entre os dois setores, Calheiros acentuou que "é preciso que as pessoas entendam que compete à Polícia Federal a investigação, a inteligência policial; e compete aos órgãos de informações, à inteligência clássica, asssessorar o governo."
Ele advertiu: "Não vamos permitir que aconteça interferência da inteligência clássica na policial." Calheiros lembrou ter conversado com o general sobre esse assunto, que falará quantas vezes forem necessárias.
"Mas é preciso fazer concessões, é preciso que todos tenham humildade e que todos saibam que não pode atropelar o espaço do outro", insinuou.
O ministro da Justiça queixou-se, por várias vezes, que a PF só recebeu as fitas, editadas, sete meses depois do grampo no BNDES. "Este é um caso complexo tecnicamente", observou o ministro, ao justificar a demora na apuração do caso. De acordo com Calheiros, não há imposições de limites políticos nem partidários para que se descubra quem fez o grampo.

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