Brasília, 22 (AE) - O ministro da Justiça, Renan Calheiros, defendeu hoje uma sabatina no Senado e a manutenção na função por três anos, se aprovados, dos candidatos ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal (PF). "É preciso ousar", afirmou.
Ele recebeu o delegado Agílio Monteiro Filho, superintendente da PF em Minas Gerais, que assume a direção nacional da corporação quinta-feira (24), no Ministério da Justiça, e garantiu que a crise em torno da nomeação chegou ao fim. "Encerrou (sic) a crise", disse.
No Congresso, parlamentares governistas e da oposição também defendem a instituição de mandato para o diretor da PF. A idéia, lançada pelo líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), é aceita pelo líder do PT na Câmara, José Genoíno (SP). "A PF tem de passar por uma reformulação, e uma delas é a fixação de um mandato para o diretor", disse o deputado petista. Segundo Calheiros, o mandato poderá significar novos rumos para a PF. Ele cita, como exemplo, o cargo de corregedor-geral de polícia, criado em 1998, no qual o indicado só passa dois anos e não pode ser demitido.
Depois de todo o desgaste gerado pela disputa em torno da indicação, Calheiros mostrou-se, no encontro de hoje com Monteiro Filho, bem diferente do dia em que foi visitado pelo delegado João Batista Campelo, nomeado pelo Palácio do Planalto e demitido na sexta-feira (18) por causa da repercussão de denúncias de prática de tortura na década de 70. Calheiros não aceitara a nomeação de Campelo e lhe deu posse numa cerimônia constrangedora, que durou menos de dez minutos. Sorridente, o ministro afirmou ter gostado da indicação, garantindo que o nome atendia aos critérios defendidos por ele. "É de dentro da PF e é um técnico", frisou.
"Está acima de grupos de interesse e foi observado o critério técnico e funcional", afirmou. Hoje, a primeira missão que Calheiros deu ao novo diretor-geral foi a de "restaurar princípios de disciplina e hierarquia" na PF. Calheiros falou ao novo diretor sobre a necessidade de investigações independentes e isentas de interesses políticos e não descartou nova operação limpeza na PF, a exemplo da de 1998, quando afastou 60 agentes e delegados acusados de corrupção.
"Se necessário, repetiremos a operação", disse. Monteiro Filho não imaginava acrescentar ao currículo o cargo de diretor-geral da PF. "Fui pêgo de surpresa", comentou com um colega, ao entrar no edifício-sede da instituição, hoje.
"Não estava em meus planos e nunca pensei nesta possibilidade", acrescentou. Ele foi comunicado da indicação na noite de ontem (21), pelo Palácio do Planalto, quando estava em sua casa, em Belo Horizonte. Ao ministro, o novo diretor da PF afirmou que espera fazer o máximo esforço para retribuir a confiança que lhe foi dada. Na conversa de hoje, ficou acertado que Monteiro Filho promoverá a integração de todas as polícias e dará maior atenção às chamadas "ações pontuais", como, por exemplo, o combate ao tráfico no Polígono da Maconha e em regiões de fronteira. Na sede da PF, ele encontrou-se com Campelo e com dois assessores. Campelo volta a Roraima ainda esta semana.
Monteiro Filho foi escolhido na noite de ontem pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para substituir Campelo, que ficou no cargo apenas por três dias. A indicação pôs um ponto final no vácuo de poder que da PF existente há três meses, desde a exoneração do ex-diretor Vicente Chelotti. A substituição do delegado gerou uma disputa de poder entre a área militar do governo, os partidos aliados e o ministro, que defendia a manutenção do delegado Wantuir Jacine, então diretor-geral interino, no cargo. Derrotado, o ministro ensaiou pedir demissão, mas foi impedido pelo partido, o PMDB.
Calheiros assegurou hoje que a normalidade estaria restabelecida dentro da PF e no relacionamento com Fernando Henrique. Ele contou que aceitou permanecer no cargo atendendo a um apelo do presidente e do partido. A permanência, frisou, não significa que esteja disposto a aceitar qualquer decisão do Palácio do Planalto, como ocorreu no caso de Campelo, nomeado independente das ressalvas dele.
Numa carreira de 21 anos como delegado federal, Monteiro Filho só deixou Minas Gerais, Estado natal, uma vez. Lá, ganhou a simpatia de vários setores, mas não formou nem participou dos diversos grupos em que se divide a PF. O delegado também não tem ligações políticas, nem com parlamentares, nem com partidos. Segundo o deputado Nilmário Miranda (PT-MG), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, a escolha foi boa, uma vez que não existe nada contra Monteiro Filho. "Ele tem boa conduta, é respeitado e eu estarei em sua posse", afirmou o deputado.
"Ele é um bom nome", confirma o colega Bolivar Steinmertz, presidente da Associação de Delegados da PF. Para ele, o fato de Monteiro Filho ser negro, o primeiro da história a comandar a PF, ajuda. "Tem de acabar com essa história de que negro só serve para empregado doméstico", afirmou Steinmertz. Calheiros vai conversar ainda esta semana com o ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, para definir maior integração entre a PF e a Secretaria Nacional Antidrogas. O acirramento das divergências entre os dois órgãos, que disputam o controle da política de combate ao narcotráfico, é o pano de fundo da briga em torno da PF. A sintonia é uma exigência do Palácio do Planalto, que pretende impedir que novos atritos culminem em crise como a encerrada nesta semana.

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