Calheiros ataca Covas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de setembro de 1999
Por César Felício 
Brasília, 14 (AE) - O ex-ministro da Justiça e senador Renan Calheiros (PMDB-AL) afirmou nesta terça-feira (14) em discurso no plenário do Senado que o governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), é "um trânsfuga da ética e da moralidade".
Calheiros recebeu hoje uma notificação do Supremo Tribunal Federal (STF) para responder a uma interpelação do governador paulista, que quer que o senador confirme ou não as insinuações de que procurou usar o seu prestígio para favorecer grupos privados em atividades no âmbito do ministério da Justiça.
"Eu reitero tudo o que consta de uma correspondência que entreguei ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Cabe ao presidente decidir se divulga a carta ou não. Faço um apelo para que a divulgue", disse Calheiros, estendendo seus ataques também ao seu sucessor no ministério da Justiça, José Carlos Dias, que definiu como tendo sido objeto de uma nomeação feita por Covas para o primeiro escalão do governo.
"As poucas providências tomadas pelo novo ministro foram, por exemplo, estadualizar licitações para inspeção técnica veicular e construção de novos presídios, negócios que podem representar R$ 1,5 bilhão e R$ 500 milhões respectivamente, além de claudicar na implantação de programas anteriores e pregar o casamento de homossexuais e a liberação da maconha", afirmou o senador.
Segundo Calheiros, "o governador é quem deveria se submeter a uma inspeção ética regularmente, já que gosta tanto de inspeções".
O senador afirmou que "Covas parece não ter o que fazer no seu Estado, que está abandonado e se supera dia a dia em índices de violência e impunidade".
Calheiros disse que Covas está relegando a administração do Estado a um segundo plano para consolidar uma possível candidatura presidencial em 2002. "Ele fica o tempo inteiro tramando como obter um passaporte para a presidência e transforma a esperança popular em desolação", disse.
No Senado, o discurso do ex-ministro teve resposta imediata e irônica. "Estou pasmo, porque pensei que Vossa Excelência estivesse falando de outra pessoa, que fez sua carreira em outro Estado. Parei para pensar se estava ouvindo o nome certo", afirmou o líder do PSDB no Senado, Sérgio Machado (CE), em uma referência velada ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, de quem Calheiros foi líder do governo na Câmara e com quem rompeu ao não ser apoiado na eleição para o governo de Alagoas em 1990.
"Covas tem uma história de não abandonar companheiros e não se curvar a poderosos", afirmou Machado, prosseguindo nas insinuações: "Não me cabe discutir para onde o País foi levado quando Vossa Excelência foi líder do governo, mas compreendo o seu estado de espírito", disse.
O ministro da Justiça, José Carlos Dias, se disse "estarrecido" com o pronunciamento, mas preferiu não retrucar o antecessor e limitou-se a comentar que o seu passado e a sua integridade "falam por si".
Afastado do governo na reforma ministerial de julho, Calheiros começou a ter atritos não apenas com Covas mas com o PSDB de forma geral ao exigir a prerrogativa de indicar o novo superintendente da Polícia Federal, em junho.
Nas semanas seguintes, o governador paulista passou a defender a sua substituição abertamente. No momento em que se afastou do governo, Calheiros insinuou irregularidades por parte de Covas e disse que estava sendo atacado por uma "súcia".
Em São Paulo, Covas assumiu abertamente que trabalhava pela demissão de Calheiros. "Eu faço parte da súcia", disse na ocasião.


