Montevidéu, 05 (AE) - O setor calçadista argentino está preocupado com a possibilidade do desaparecimento de 500 empresas e da perda de 12 mil a 15 mil empregos nos próximos seis meses. De forma inesperada, os máximos dirigentes da Câmara da Indústria do Calçado (CIC) - equivalente à Abicalçados - apareceram hoje na sede do Mercosul para "assessorar o governo argentino em qualquer consulta necessária sobre a situação crítica do setor" e, de alguma forma, pressionar a delegação brasileira a aceitar alguns mecanismos de defesa.
O gerente da CIC, Carlos Litzmann, disse à Agência Estado que, além da "assessoria técnica", os representantes do setor calçadista vieram para Montevidéu em busca de apóio do governo argentino na empreitada de consegir mecanismos que permitam a autolimitação (restrições voluntárias) de exportações de calçados brasileiros. De acordo com Litzmann, as exportações de calçados do Brasil para a Argentina pularam de 700 mil pares, em 1991, para 11 milhões de pares o ano passado. Este ano, esse número deverá fechar em 17 milhões de pares.
"Estão destruindo a nossa indústria", reclamou Litzmann. Ele explicou que, além do volume crescente desse produto no mercado argentino, os mecanismos de promoção ultilizados pelo Brasil - subsídios às exportações por meio do Proex - permitem uma distorção de preços exorbitante. "Somando esses mecanismos à desvalorização do real, a diferença de preço de um calçado brasileiro no mercado argentino é de 50% (mais barato)", acrescentou o dirigente da CIC, que veio acompanhado ainda de representantes do sindicato dos trabalhadores do setor calçadista argentino.
As lamentações dos calçadistas argentinos, porém, não param aí. Litzmann acrescentou que metade - entre 40% e 50%, da produção de calçados femininos, principalmente os confeccionados com material sintético - é afetada pelas importações feitas do Brasil. Hoje, a indústria de calçados da Argentina produz 60 milhões de pares, sendo que apenas 5% desse volume é exportado.
Ele disse ainda que, no início da década de 80, a Argentina importava apenas 100 mil pares e, em 1995, quando entrou em vigor a união aduaneira no Mercosul, esse número havia pulado para 21 milhões de pares. "Em função desse crescimento, o governo estabeleceu quotas de 4 milhões para países fora do Mercosul", afirmou. "Nossa proposta de limitar a entrada de calçados brasileiros nos parece razoável", disse à Agência Estado.
De acordo com Litzmann, a CIC propôs à Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), no dia 27 do mês passado
uma quota de 4 milhões de pares, mas a entidade não só rejeitou como não fez contraproposta alguma. Litzmannn disse ter telefonado hoje aos dirigentes da Abicalçados e os convidou a vir até Montevidéu, onde poderiam retomar as negociações para chegar a um acordo. A Abicalçados não deu resposta.
Informado sobre a presença de dirigentes e sindicalistas argentinos na sede do Mercosul, o embaixador José Alfredo Graça Lima, subsecretário de Assuntos de Integração, Econômicos e de Comércio Exterior, afirmou que o papel dos governo é de promover a expansão do comércio e não de limitá-lo. "Temos de distinguir entre o que os governos podem fazer e o que os setores empresarias podem conseguir", disse.
Por sua vez, Jorge Campbell, secretário de Relações Internacionais da chancelaria argentina, disse ter encontrado "boa vontade" por parte do governo brasileiro sobre essa questão. "A discussão entre setores pode ser um bom caminho para resolver esses problemas", afirmou.

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