Calçada é raridade em muitas casas paranaenses
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de junho de 2013
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
"Aqui, pedestre não tem vez. Tem que contar com a sorte." Assim a vendedora Nilcéia de Jesus Oliveira, de 36 anos, descreve como é perambular pelas ruas de São Jerônimo da Serra (Norte Pioneiro) em um dia de chuva.
A reportagem da FOLHA abordou Nilcéia após ela ser obrigada a andar pela rua em um quarteirão inteiro da pequena cidade por falta de calçadas no trecho. "Não tem como não andar pela rua, não tem calçada. Além disso, aqui atrás tem rua sem asfalto, então quando chove vem o barro e fica ainda mais difícil", explica. "Às vezes é perigoso, porque vêm dois ou três carros, e tem muita rua estreita. O jeito é esperar o carro passar."
A estudante Setembrina Rodrigues de Souza, 37, também moradora de São Jerônimo da Serra, concorda. "Tem que andar na rua, mas é perigoso acontecer algum acidente", lamenta.
Andando por algumas ruas residenciais da cidade, a reportagem viu várias casas sem calçadas. Em uma delas, um morador até fez uma pequena horta onde deveria estar a calçada. No ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados sobre o entorno das residências brasileiras, coletados durante o Censo Demográfico de 2010. A pesquisa apontou que em São Jerônimo da Serra apenas 23,7% das casas na área urbana tinham calçadas.
Moradores de residências nessas condições alegam que não têm como fazer essa estrutura. "Não temos dinheiro. Todo mundo fala que fica caro", diz a dona de casa Marlene Fátima Ramos, 32, que mora em uma casa sem calçada com as duas filhas e o marido, que é funcionário de uma cerâmica.
A situação não é exclusiva do pequeno município nortista, de pouco mais de 11 mil habitantes. Segundo o IBGE, em 2010, 69% das residências urbanas em todo o Brasil possuíam calçada. No Paraná, 300 dos 399 municípios (o equivalente a 75%) tinham índice de calçadas em casas na área urbana inferior ao patamar nacional. Em mais da metade das cidades paranaenses, 224 ao todo, a quantia de residências com calçada não chegava a 50% do número total de domicílios.
Recentemente, o Governo do Paraná anunciou um projeto para construção de calçadas em pequenos municípios, mas os imóveis residenciais não serão prioridade (veja box).
O engenheiro civil Valter Fanini, assessor de políticas públicas do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR), aponta que o desprezo às calçadas é resultado de fatores culturais, já que o Brasil "importou" o modelo de valorização do automóvel em detrimento dos deslocamentos a pé.
"As ruas são responsabilidade do poder público, e as calçadas, dos proprietários dos imóveis. Acaba sendo um contrassenso, porque todo mundo é pedestre mas nem todo mundo é motorista", afirma Fanini.
O engenheiro alerta que mesmo a presença de calçadas não é garantia de deslocamento seguro para os pedestres. Ele cita a falta de padrões técnicos para esse tipo de estrutura. "Calçada é qualquer coisa", critica. "Qualquer veículo que passa por cima faz afundar, ou o adensamento natural já deforma a calçada."
Isso para não mencionar outros problemas, como má conservação e falta de condições de acessibilidade. "Para cadeirantes, idosos, gestantes, o problema é multiplicado exponencialmente", diz Fanini. O engenheiro acredita que, em razão do sobrecarregamento do sistema viário, está em curso um despertar para a importância das calçadas na mobilidade urbana. "Mas é uma reversão de pensamento lenta", considera.


