Rio, 23 (AE) - Aparentando tranquilidade e bom-humor, mas alegando frustração, o presidente demitido do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Andrea Calabi - indicado do ministro da Saúde, José Serra - afirmou que sua dispensa não teve conotação política. Ele explicou que seu chefe
o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Alcides Tápias, queria montar a própria equipe e reclamava da "diferença de estilos" entre os dois. Mas Calabi negou qualquer divergência com Tápias. "Todas as questões relevantes do banco foram resolvidas junto com o ministro". Tápias, no entanto, achava que Calabi falava demais.
O presidente do BNDES declarou entender a justificativa de Tápias - o ministro prefere alguém mais "contido" -, mas não concorda com ela. "Falar é da natureza do cargo", afirmou. "Podia parecer que eu falava mais do que o ministro, mas o BNDES é um banco público e eu preciso dar informações". Na entrevista à imprensa, Calabi tentou pôr um ponto final em algumas das declarações que lhe custaram o cargo.
Sobre a suposta negociação de compra de ativos não financeiros do Bradesco, assunto que Calabi deixou dúbio há uma semana e meia, ele foi incisivo: "Não estamos comprando nada do Bradesco, e nunca houve maneira direta, indireta, enviesada ou escamoteada de financiar o banco para a compra do Banespa". Calabi frisou que, aliás, o BNDES não financia banco algum.
O ministro Tápias estava descontente havia algum tempo com a exposição de Calabi. No meio de janeiro, por exemplo, o presidente do BNDES disse que a BNDESPar, braço do banco, estava disposta a associar-se a empresas privadas para comprar empresas nas próximas privatizações. A primeira seria a Central Elétrica de Pernambuco (Celpe) - mas o único grupo interessado, a Iberdrola, dispensou o financiamento. No dia seguinte, Calabi assinou uma carta dizendo que isso não significava uma mudança de rumos do banco, mas o documento foi enviado pelos assessores de Tápias.
Calabi também vinha explicitando uma posição "neonacionalista" do banco, e confirmou o acordo com o Grupo Ultra, do empresário Paulo Cunha, para a compra da central petroquímica Copene, importante ativo do Pólo de Camaçari. "O BNDES assinou um protocolo com o Ultra para investimentos em petroquímica, e foi uma decisão conjunta do banco e do ministro", disse. "Mas estas questões têm seu curso e fica difícil para mim antecipar qual será o futuro disto".
Calabi afirmou que o acusam de dar apoio a Cunha porque o empresário também pertence ao PSDB. "É exatamente o contrário: toda a Bahia apóia a associação do BNDES com o Ultra porque acredita que o grupo vai recuperar Camaçari". Ele garantiu ainda que foi zero a influência do senador Antonio Carlos Magalhães na questão do pólo baiano. "Não houve interferência nem do senador nem do empresário Emílio Odebrecht porque aqui comigo no BNDES não há influências políticas".
O presidente do BNDES recebeu o "aviso prévio" na segunda-feira à noite, e foi demitido no dia seguinte. Ele disse que está frustrado por não poder tocar seu trabalho no banco: financiar o reaquecimento da economia, promover as reestruturações industriais pós-privatizações e modernizar os instrumentos de trabalho. Nos corredores do BNDES, entretanto, houve comemoração. "Foi um alívio", afirmou um diretor.
"Calabi promoveu uma ebulição no banco". Um dos últimos atos de Calabi foi ratificar a troca de diretores que, segundo ele, será mantida por Tápias. Saem Eduardo Rath Fingerl e Fernando Perrone e entram Isaac Zagury e Aluysio Asti.
Nos próximos 15 dias, Calabi pretende descansar. Ele não quer voltar para a consultoria Consemp, da qual afirma ter saído antes de assumir a presidência do Banco do Brasil, em dezembro de 1998. Depois de ter sido professor da Universidade de São Paulo (USP) e secretário do Tesouro Nacional, entre outros cargos, não deve ficar mais no governo, apesar de dizer que se sente "muito próximo" do presidente Fernando Henrique Cardoso. "O presidente dá o tom do governo, e não acho que o trabalho do ministro A ou B contraste com o do ministro C ou D". Fernando Henrique telefonou para Calabi, em solidariedade, na terça-feira à noite.

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