Rio, 19 (AE) - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deverá rever o parecer sobre a emenda Ford na gestão do novo presidente do banco, provavelmente o atual presidente do Banco do Brasil (BB), Andrea Calabi. Homem de confiança do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Clóvis Carvalho, Calabi só não foi transferido de cargo ainda por questões técnicas: deve concluir a negociação de financiamento da dívida de R$ 6,1 bilhões da Prefeitura de São Paulo e adiantar o programa de reestruturação do BB.
O presidente demissionário, José Pio Borges, assinara um documento de 14 páginas, enviado diretamente ao Palácio do Planalto - sem passagem prévia pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, ao qual o BNDES é vinculado - com uma defesa enfática aos incentivos fiscais para a fábrica da Ford na Bahia. O então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comérco, Celso Lafer, recebeu apenas um resumo do estudo que, segundo fontes que tiveram acesso à documentação, era mais político do que técnico.
A questão da Ford expôs a descoordenação política e gerencial do governo. "O Pio precipitou-se e acreditou muito na força do PFL baiano", diz um amigo do ex-presidente do BNDES que, desde a entrega do pedido de demissão, enviado sexta-feira (16), por fax, em termos protocolares, refugiou-se em sua casa, na Região Serrana do Rio, e recusa-se a falar sobre o assunto. "A questão do estudo da Ford é um enigma que ainda levará tempo para ser decifrado e todos temos desconfiança em relação ao que ocorreu", comenta a mesma fonte.
Instrumento mais poderoso do Ministério do Planejamento, o BNDES é também a estatal mais cobiçada pelos partidos governistas. O orçamento do banco dá uma dimensão do interesse: R$ 19 bilhões para desembolso este ano, em projetos que vão desde empréstimo a pequenos empreendimentos até financiamentos de mais de R$ 500 milhões, como o que está sendo estimado para a Ford, em torno de R$ 700 milhões. Lafer estranhou, na época, que o documento do BNDES não tenha passado pela avaliação dele. "Mesmo assim, ele não moveu uma palha nesta questão do afastamento do Pio Borges", diz uma fonte do ministério.
No documento enviado ao presidente, Borges defendia não apenas o empréstimo, como também a manutenção da fábrica na Bahia, o que irritou o tucanato paulista. A homenagem que o então presidente do BNDES recebeu na Bahia também causou mal-estar no Palácio do Planalto. Calabi tem a seu favor, além da proximidade com Carvalho, um trânsito bom com o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Na época da briga do cacique do PFL com o ministro da Saúde, José Serra, ele atuou como uma espécie de intermediário entre as duas partes. No banco, é tida como certa a manutenção da atual diretoria, formada essencialmente por técnicos com mandato de três anos. Nos últimos meses, a diretoria passou por três presidências sem praticamente nenhuma alteração, à exceção do diretor de Privatização, que ocupou a vaga de Borges, quando ele substituiu o ex-presidente André Lara Resende.

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