Cairns evitará que agricultura seja alvo de manobras na OMC
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quinta-feira, 26 de agosto de 1999
Por Vladimir Goitia (enviado especial) 
Buenos Aires, 27 (AE) - Os ministros de Agricultura de 15 países que dependem significativamente de suas exportações agrícolas não vão deixar Buenos Aires - domingo (29), quando termina a reunião do Grupo de Cairns - sem ter acertado um discurso afinado e comum. Eles querem ver certas regras agrícolas básicas aceitas pela União Européia e pelos Estados Unidos, antes mesmo de iniciar uma nova rodada de negociações gerais no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Em entrevista exclusiva à AGÊNCIA ESTADO, o embaixador Carlos Antônio da Rocha Paranhos, chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais do Ministério de Agricultura, antecipou que o Grupo de Cairns deixará Buenos Aires com uma linha estratégica de negociações definida e com um discurso forte para não aceitar que a questão agrícola seja alvo de manobras para ficar à margem do processo das negociações multilaterais no âmbito da OMC.
"Nem mesmo vamos a aceitar que os poucos acordos até agora conseguidos fiquem diluídos na pressão dos países desenvolvidos, em detrimento das nações em desenvolvimento", disse o embaixador, que participa hoje à tarde da primeira reunião de técnicos, que começam a definir os pontos que farão parte da declaração de ministros, a ser divulgada domingo.
Para o embaixador Paranhos, a eliminação dos subsídios agrícolas, concedidos pelos EUA e pelos países europeus, e necessidade de melhorar o acesso aos mercados agrícolas são fundamentais para, depois, pensar em ampliar o leque de negociações a partir de Seattle, em novembro. "Esse é um compromisso fechado entre os países do Grupo de Cairns", acrescentou.
De acordo com o diplomata, que foi membro da delegação brasileira em Genebra até pouco tempo atrás, o fato de o Brasil ter uma meta ambiciosa de atingir um volume de US$ 100 bilhões em exportações, no qual o complexo agrícola terá uma contribuição de pelo menos US$ 45 bilhões, implica a posição rígida de pressão acertada até agora pelo Grupo de Cairns para a liberação dos mercados europeu, norteamericano e asiático.
"Do ponto de vista das exportações, a reunião de Buenos Aires exige um alto nível de coordenação para, depois, chegar a Seattle com uma plataforma uniforme de posições", explicou o embaixador. Sobre o alto volume de subsídios concedido pelos EUA e a União Européia, que passa de US$ 300 bilhões por ano, o Grupo de Cairns deve considerá-lo completamente inaceitável e será transmitido ao secertário de Agricultura norte-americano, Dan Glickman.
"O ministro Partini de Moraes tem declarado, repetidas vezes, que a alocação desses recursos representa o deslocamento das exportações agrícolas de países mais competitivos, razão pela qual acreditamos que o encontro do Grupo de Cairns não será apenas um exercício de retórica", disse.
Lembrado sobre a "infidelidade" dos EUA durante a Rodada Uruguai do Gatt, quando o governo norteamericano acabou se alinhando aos europeus, o embaixador acredita que dificilmente voltará a ocorrer um fato semelhante. "Embora os resultados da Rodada Uruguai tenham ficado aquém das expectaivas dos países que querem maior liberdade agrícola, acredito que houve progressos em algumas disciplinas, com regras clara em matéria de apoio interno e de subsídios", afirmou.
Porém, acrescentou o embaixador, "essas regras ainda atendem os interesses europeus, razão pela qual vamos a lutar para passar para um outro patamar de liberalização de mercados". Paranhos insistiu, por diversas vezes, que o Grupo de Cairns vai brigar muito para evitar que a eventual Rodada do Milênio, que poderá ser lançada ao final de novembro, se concentre apenas em temas de interesse de países industrializados, como os de comércio eletrônico, serviços e de propriedade intelectual.
"Não vamos mais aceitar desculpas ou subterfúgios daqueles que defendem a multifuncionalidade para não avançar na abertura dos mercados agrícolas", disse o embaixador, ao se referir à nova palavra "inventada" pelos europeus para "manter" os espaçõs verdes e "preservar" o meio ambiente.
Os analistas do setor dizem, porém, que o nível de liberalização agrícola na futura Rodada do Milênio vai depender quase que exclusivanemte da postura dos EUA, o maior exportador do setor na atualidade.


