Dois policiais militares foram algemados e ficaram retidos durante boa parte do dia de ontem por índios caingangues da Reserva do Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina). Os índios alegaram que os PMs haviam chegado à área pela manhã em um Gol descaracterizado, estavam à paisana, se identificaram como jornalistas e só depois revelaram ser policiais. Já o 5º Batalhão da PM afirma que os policiais estariam indo vistoriar a fazenda Tamoyo, que fica ao lado da reserva e foi invadida pelos índios há três dias.
  Segundo o presidente do Conselho Indígena do Norte do Paraná, Antônio Ribeiro, os policiais militares foram rendidos e algemados porque eles não poderiam estar na aldeia. Ribeiro afirmou que no carro onde eles estavam foram encontradas duas pistolas, revólveres enferrujados e até uma metralhadora. Além disso, havia ainda um capuz e pacotes de veneno. Os caingangues acreditavam que os dois PMs estariam tentando infiltrar armas na reserva e poderiam também envenenar a água consumida. Somente com a chegada de policiais federais, à tarde, é que os PMs foram liberados.
  Ontem à tarde, o clima era de relativa tranqüilidade na reserva e na fazenda invadida, cuja entrada os índios bloquearam com um tronco de pinheiro. De acordo com Ribeiro, ao menos 30 famílias ocupam a sede da propriedade que, segundo os índios, tem cerca de 140 hectares. Até amanhã, pelo menos mais 15 famílias indígenas da Reserva de Mococa, em Natingui, devem chegar ao local. Os índios dizem que não vão sair da fazenda porque a área pertencia originalmente aos índios até ser ocupada pelo homem branco, por volta de 1920.
  A Folha apurou que a área pertenceria ao funcionário da Petrobras José Valdir Brescansin, que reside no Rio de Janeiro. A reportagem não conseguiu contato com o proprietário. No início da semana, a PM havia cumprido uma desocupação da fazenda, que havia sido invadida por famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
  A PF resgatou os dois PMs a pedido do Ministério Público Federal (PRF). O cacique da tribo, Jucelino Virgílio, acompanhado de mais dois índios, prestou depoimento na sede da PF. Os policiais também foram ouvidos e liberados.
  De acordo com o major Sérgio Dalbem, do 5º Batalhão da Polícia Militar, os policiais – um sargento e um soldado do Serviço Reservado (P2) – passaram por horas de tensão. Não houve agressão física, mas os PMs teriam sido ameaçados de espancamento e até mesmo humilhados. O major negou que eles tenham invadido a reserva do Apucaraninha. ‘‘Os índios invadiram uma propriedade particular e cabe à PM fazer o levantamento da situação. Os policiais estavam se dirigindo pra lá, quando foram surpreendidos pelos índios e presos com as próprias algemas’’, relatou.
  Além de acompanhar os depoimentos na PF, Dalbem afirmou à Folha que conversou com o cacique por telefone. Ele teria dito, segundo o major, que os policiais infringiram regras indígenas ao invadir os limites da aldeia. ‘‘Ele disse que o pessoal estava dentro da reserva e que aquelas eram as leis da tribo’’, contou.
  O cacique permanecia até o início da noite de ontem dando explicações sobre o fato ao delegado-chefe da PF, Élcio Fuscolin. Após os depoimentos, os índios seriam levados de volta à reserva.

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