Cai renda e trabalhador inicia ano ganhando menos do que em 94
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quarta-feira, 22 de setembro de 1999
Por Sandra Gomide 
São Paulo, 23 (AE) - O administrador de empresas Luiz Alexandre Duarte Xavier deixou a fabricante de máquinas Bekum do Brasil, onde havia sete anos era Chefe de Vendas Internacionais, para tentar um novo emprego no mercado de trabalho. Depois de procurar por seis meses, conseguiu recolocar-se na Irmãos Semeraro Ltda., também produtora de máquinas, para ocupar o mesmo cargo e desempenhar praticamente as mesmas funções a que estava acostumado na antiga empresa. A única diferença é que seu salário foi reduzido em 30%. "Negociei com quase dez empresas, mas em todos os casos seria inevitável a diminuição da minha renda mensal", afirma Xavier. "O mercado exige mais conhecimento, mas está pagando menos".
O caso de Xavier não é uma exceção. Na média, o trabalhador brasileiro vai iniciar o ano 2000 com salário menor do que tinha em meados de 1994, no começo do Plano Real. A recessão econômica já corroeu quase todo o ganho real da renda obtido pelos assalariados e a perspectiva dos economistas, com base no quadro atual da atividade econômica, é que essa situação deva agravar-se nos próximos meses.
De junho de 1994 a julho deste ano, as perdas acumuladas pela mão-de-obra assalariada na Grande São Paulo praticamente consumiram os ganhos do plano econômico, segundo pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) e da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Também as informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam essa tendência. O ganho médio real da população ocupada no País hoje é de 5 salários mínimos, enquanto em janeiro de 1995 (últimos dados disponíveis) chegou a 6.
Estudo elaborado pelo economista Claudio Salvadori Deddeca, da Universidade de Campinas (Unicamp), revela que a situação mais crítica se encontra no setor industrial. Os salários na indústria de transformação no fim do ano passado já estavam, em média, 15% mais baixos do que em meados de 1994.
Indústria - Uma prova é a redução de 17% na participação dos salários no Produto Interno Bruto (PIB) da indústria, fenômeno que vem sendo observado desde 1990. Essa é uma trajetória que não foi revertida nem com os ganhos obtidos após o Plano Real . "A situação do emprego hoje mostra que há perda de renda, de postos de trabalho e também da massa salarial na economia ", afirma Deddeca.
Na prática, significa que os trabalhadores não somente perderam tudo o que ganharam com o plano como também verificam o início do comprometimento de seus salários atuais. Em alguns casos, a renda já está abaixo dos níveis anteriores ao Plano Real. O salário médio real do trabalhador da indústria da região metropolitana de São Paulo, que era R$ 960 em julho de 1994, foi reduzido para R$ 883 em julho deste ano, segundo o Dieese. No auge da economia pós-Real, seus ganhos chegaram a R$ 1 mil. Os trabalhadores com carteira assinada tiveram redução de R$ 891 para R$ 887 no mesmo período.
No caso dos trabalhadores sem carteira assinada, a situação não é tão ruim, pois sua renda mensal média (R$ 543, em julho deste ano) conserva ainda pequena parcela de ganhos referentes ao plano econômico (R$ 390, em julho de 1994).
"Isso é resultado de dois anos de recessão e, como a atividade econômica não está aquecida, tudo leva a crer que esse quadro tende a piorar até o fim do ano", afirma Sérgio Mendonça
presidente do Dieese.
As projeções dos principais setores da economia confirmam essa análise. Os fabricantes de televisores e vídeocassetes, por exemplo, acreditam vender este ano de 30% a 35% a menos que no ano passado. No caso da indústria automobilística, a previsão da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) é produzir 1,4 milhão de carros, cerca de 200 mil unidades menos que em 1994.
Embora os dados das pesquisas mostrem o que os principais economistas do País já previam, poucas são as empresas dispostas a revelar sua situação interna. Das 30 empresas consultadas, apenas a mineira LAcqua di Fiori, fabricante de perfumes que deve faturar R$ 80 milhões neste ano, informou que, além de reduzir o quadro de funcionários de 110 para 93 pessoas após a desvalorização cambial, no início do ano, tratou de treinar os remanescentes para que exerçam várias funções na linha de produção com o mesmo salário.
"Não chegamos a ter queda nas vendas, mas optamos por demitir porque nossa margem de lucro foi reduzida em razão da alta do dólar e, consequentemente, das matérias-primas importadas", conta José Paulo Mesquita, diretor da empresa. "Se não fosse isso, teríamos de repassar os aumentos para os preços finais".
Ainda que as companhias prefiram não encarar tal situação, basta olhar a pauta de reivindicações dos sindicatos trabalhistas para perceber que o recuo da renda não está restrito a alguns setores da economia. Enquanto nos anos anteriores as negociações se concentraram na manutenção do emprego, neste ano há uma mudança clara em seu perfil, prevalecendo as reivindicações para reposição de perdas . "Pela primeira vez as empresas estão aceitando negociar tais reduções de salário", lembra Deddeca.
Reajustes - Os metalúrgicos do ABC, por exemplo, que têm data-base em novembro, devem entregar às empresas amanhã (24) a pauta de reivindicações, solicitando 10,4% de reposição salarial
no caso das montadoras, e 8,23% no segmento de autopeças. Os bancários, por sua vez, que negociam em setembro, querem reposição de 5,79% do período de setembro de 1998 a agosto deste ano, além de outros 4,58% referentes às perdas acumuladas de setembro de 1994 a agosto de 1998. Na região do ABC, na qual o mercado de trabalho reflete a saída das grandes montadoras, os resultados da crise econômica são ainda mais visíveis. Os dados da Seade-Dieese indicam que as perdas acumuladas já consumiram 0 5% do salário de julho de 1994. Em relação à massa salarial dos metalúrgicos da região, houve redução de 32%.
"No mínimo, a inflação do período terá de ser repassada para os salários neste ano", acredita Fernando Tadeu Perez, vice-presidente de Recursos Humanos da Volkswagen, que, embora tenha aberto três novas fábricas desde 1994, também teve redução no número de trabalhadores. Dos 30,6 mil empregados em dezembro de 1994, restam 29,7 mil. Ele acredita que, em muitos casos, como o da própria Volks, os salários mantiveram seus ganhos por meio da participação nos lucros e concessão de benefícios, como saúde. "Serão negociações difíceis", reconhece o diretor de outra grande montadora.


