Após perder dois irmãos, vítimas da anemia de Fanconi, o motorista Júlio Cesar Toledo Pereira, 30 anos, procura um doador de medula óssea para tentar se livrar da mesma doença. Morador de São José dos Campos, no interior de São Paulo, ele
conta com a mobilização de familiares que vivem na região de Londrina de uma campanha que visa estimular as doações por meio da distribuição de cartazes, camisetas e outras informações também divulgadas pelas redes sociais. "A campanha já chegou no Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso e outros estados e incentiva o cadastro no banco de medula óssea. Se não for compatível no meu caso, a pessoa estará ajudando outra pessoa", disse Pereira, que foi diagnosticado com aprazia medular quando realizou exames na tentativa de ajudar o irmão, falecido no último mês de maio. "Esse problema raro que não tem tratamento pode provocar a anemia de Fanconi. Mas, no meu caso, ainda não se manifestou", acrescentou o motorista, que continua trabalhando.
A probabilidade de um paciente que necessita de um transplante de medula óssea encontrar um receptor compatível nos casos mais difíceis é de até 1 em 1 milhão. No entanto, quando o doador compatível é localizado não significa que a luta para permanecer vivo chegou ao fim. Segundo o diretor do Hemocentro de Londrina, Fausto Trigo, aproximadamente um terço das pessoas cadastradas não é localizado pela falta de atualização do cadastro quando são consideradas compatíveis com um paciente que aguarda a cirurgia, em casos de doenças como leucemias, falência medular e alguns tipos de linfomas.
Assim, a realização do cadastro e coleta do sangue para análise laboratorial é apenas o primeiro passo para se tornar um doador de medula óssea. "Em Londrina, houve um aumento de 100% nos cadastros, que chegam a 250 por mês atualmente. O banco de dados tem a identidade genética dos candidatos que podem ser chamados no futuro", informou. Trigo ainda lembrou que o Instituto Nacional de Câncer (Inca) não aconselha campanhas pontuais voltadas apenas para um paciente, já que os doadores podem recusar o transplante caso o receptor não seja a pessoa conhecida. "O cadastrado tem que estar disposto a ajudar a todos até porque os pacientes deixam a fila por um transplante em caso de óbito ou por causa da melhora no quadro depois da quimioterapia", ressaltou.

DIFICULDADE
Já a responsável pelo setor de medula óssea do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná (Hemepar), a bióloga Jaqueline Morcelli Castro, calcula que pelo menos 10% dos doadores paranaenses compatíveis são descartados devido à falta de atualização dos dados. "Somos o único estado que usa até as redes sociais na tentativa de entrar em contato com os doadores, além do telefone e informações de outros órgãos estaduais. Mesmo assim, alguns não são localizados", lamentou. O Hemepar tem o limite de 450 amostras mensais e nas unidades espalhadas pelo Paraná, o número médio é de 50 coletas por mês. "Não constatamos nenhum aumento significativo nos últimos anos. O que ocorre é o crescimento em determinadas regiões durante período de campanhas", disse.
O Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) esclareceu à FOLHA que doadores permanecem em média de 20 a 25 anos como possíveis doadores e por esse motivo devem atualizar os dados sempre que houver qualquer mudança, o que pode ser feito pelo site www.inca.gov.br/doador. "Em determinada fase do processo, é necessário entrar em contato com o doador e confirmar seus dados e sua decisão de permanecer como doador. No Brasil, o percentual de doadores classificados como indisponíveis ao serem selecionados está em torno de 30% em média. Este valor ainda é muito razoável, se comparado a registros de outros países, que já alcançaram 60% de indisponibilidade", informou em nota enviada à reportagem.

ADESÃO
Em Londrina, a campanha de doação é coordenada pela tia de Julio Cesar Pereira, Lourdes Cássia Saloio, que conseguiu autorização da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) para colocar cartazes dentro de 180 ônibus do transporte coletivo. "Além disso, adesivos estão sendo colocados em carros e 1.800 panfletos devem ser distribuídos. O objetivo é aumentar o número de doadores até porque não sabemos se um doador será encontrado. A prima dele não foi considerada compatível para ajudar o Júlio, mas fez a doação para uma pessoa do Rio de Janeiro", comentou.

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