Cada vez mais isolado, Chirac só governa com a simpatia Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 29 (AE) - Mal regressado do Rio de Janeiro, o presidente francês, Jacques Chirac, viu-se lançado num turbilhão. Já quando deixou a França rumo ao Brasil seu partido, o RPR gaullista, iniciava a debandada. Os "gaullistas" mais brilhantes, mais poderosos (Charles Pasqua e Philippe Séguin) se distanciaram. E durante as poucas horas de ausência de Chirac a "casa gaullista" perdeu mais alguns tijolos, adernando perigosamente.
Agora é a Prefeitura de Paris que ameaça ruir, uma vez que seu chefe, o prefeito Jean Tibéry, se encontra sob o crivo da justiça. E essa prefeitura é um dos sustentáculos do poder gaullista.
A cidade de Paris é gigantesca. Num país centralizado como a França tudo acontece na capital: política, economia, finanças, cultura, universidades, artes, etc. A Prefeitura de Paris (na França o prefeito não é designado pelo governo, sendo eleito pela população) constitui, pois, um bastião do poder nacional.
Aliás, este é o motivo pelo qual Jacques Chirac e seu partido gaullista tomaram conta da prefeitura, há já quase vinte anos. Desde então a prefeitura ficou nas mãos do partido de Chirac, na qual os gaullistas detêm a formidável ferramenta que lhes permite alçar um dos seus (Jacques Chirac) ao poder.
Por isso, ao ser eleito presidente da República, Chirac jamais pensou em perder a prefeitura, promovendo a eleição, em seu lugar, de um de seus antigos assessores na Prefeitura.
E assim Jean Tibéri tornou-se prefeito. Quanto à sua palidez Tibéri não decepcionou as esperanças nele colocadas. Carente de perfil ou de qualquer brilhantismo, tão divertido quanto um notário do século 19, Tibéri não fazia sombra a ninguém.
Infelizmente, no decurso dos anos e já sob a gestão do prefeito Chirac, Jean Tibéri expôs-se a críticas, quer por ter cometido indelicadezas, quer pelo fato de seus auxiliares misturarem as finanças partidárias (do RPR) e as da prefeitura. Seria culpado? Ninguém poderia dizê-lo. Mas, fato é que foi intimado pela justiça.
Desde a manhã desta terça-feira Tibéri tem menos amigos do que ontem. "Os ratos abandonam o navio..." Sem dúvida, Tibéri está empesteado, pois seus amigos temem dar-lhe a mão. O que não seria muito apetitoso.
Para Chirac, o naufrágio desse homenzinho triste e sem talento é um novo desastre. Desde que se elegeu presidente tudo está dando errado; com o passar dos meses foi perdendo seus melhores camaradas. Primeiramente Alain Juppé, o mais inteligente dos gaullistas. Porém tão frio, tão tecnocrata, que foi necessário retirá-lo do posto de primeiro-ministro. Em seguida Chirac perdeu seus dois "marechais de campo": Pasqua e Séguin. E agora assiste ao afogamento de Tibéri que, apesar de desprovido de encantos, controlava esse instrumento fabuloso que é a Prefeitura de Paris.
Um deserto está sendo criado em torno de Chirac. O nível de suas tropas restantes é medíocre (Jean-Louis Debré, Bernard Pons, Jacques Toubon...) E uma vez que no resto da direita a maior parte dos proceres é hostil a Chirac (tendo à frente Valéry Giscard dEstaing), o infortunado Chirac já não tem contingentes para manobrar.
Resta-lhe um único aliado: a simpatia que inspira! E por justa razão: é bem verdade que seja astucioso; mas, afinal, que político não é mentiroso? E, pelo menos, é bom moço, de falas edificantes, dotado de calor humano verdadeiro, de boa vontade, boas gargalhadas e aparentamente carente de desprezo pelos outros.
Assim, o único aliado que Chirac ainda tem é ele próprio. A prova: enquanto a destruição da direita se processa em ritmo acelerado, enquanto a doença do partido gaullista (RPR) multiplica as mestásteses Chirac continua gozando de um bom conceito nas pesquisas de opinião. Um magro consolo. É impossível governar um país pela simpatia.





