'Cada dia é uma grande aventura'
Folha Você já está há um ano viajando. Antes de pegar a estrada pensava diferente de agora? O que mudou?
Pedro Henrique Não muito. Uma coisa foi a idéia que tinha a respeito das dificuldades que apareceriam pelo caminho. Mas o conceito que tenho da viagem continua basicamente o mesmo. Conhecer bem uma quantidade enorme de lugares de uma maneira que só uma viagem como essa, em motocicleta, permite. Além de tudo, cada dia é uma grande aventura, um novo desafio que tem que ser enfrentado com muita garra.
Folha Cite alguns lugares indispensáveis para os aventureiros de plantão percorrerem.
Pedro Henrique Diria que mesmo os lugares mais desenvolvidos têm suas inúmeras dificuldades. Mas, para quem gosta de lama, desertos, altitude, lugares inóspitos e coisas do gênero, posso seguramente recomendar o deserto do Saara, o Alaska, o Oriente Médio em geral e a Cordilheira dos Andes, entre muitos outros.
Folha Quando passou pelo Oriente Médio, os atentados terroristas contra Nova Yorque já tinham ocorrido?
Pedro Henrique Sim. E a guerra do Afeganistão já tinha começado quando eu ainda estava na Turquia. Saí de Israel hoje. Tive um pouco de medo, mas os países do Oriente Médio são, em geral, muito seguros.
Folha O que é mais difícil levar na bagagem em uma viagem como essa? A coragem para enfrentar novos desafios ou coisas práticas, como dinheiro, roupas, e equipamentos?
Pedro Henrique Coragem é essencial. Um bom planejamento com o equipamento também. É necessário muito cuidado para não carregar peso inútil.
Folha Das histórias e passagens que você está vivendo, cite uma que vai ficar gravada de maneira especial.
Pedro Henrique Estava na costa do México, peguei a moto e saí para mais um dia de viagem. Saí de Puerto Vallarta com um calor de 42 graus. Mesmo com o dia extremamente abafado, segui em frente. Depois de uns 150 km de viagem parei para comer mariscos em um vilarejo chamado San Blas, e ali uma velha senhora mexicana contou-me uma lenda local de uma forma que quase me fez chorar. Emocionado, continuei a viagem. Uns 50 km depois a moto começou a fazer um barulho estranho. Mais estranho ainda é que ela só fazia esse barulho, um ruído metálico, entre 120 e 140 km/h. Resolvi seguir a 150 km/h, pois assim não havia barulho. A recompensa veio uns 20 km depois. Saiu uma fumaceira do motor e a moto parou. Tentei inutilmente ligar a moto, que quebrou numa estrada movimentada e sem acostamento. Tive que empurrá-la (nada fácil, carregada ela pesa mais de 300 kg) para o meio do mato e fazer o melhor possível para escondê-la. Depois saí andando para procurar ajuda, segurando a jaqueta e o capacete, naquele sol escaldante.
Folha O que aconteceu então?
Pedro Henrique Fui andando pela estrada debaixo daquele sol, dentro de um macacão preto que parecia cada vez mais pesado e quente. Os caminhões passavam zunindo ao meu lado, quase me atingindo. Olhava adiante e só via mato. O resultado foi que tive que andar 20 km nessas condições, até chegar a um povoado minúsculo. Quando cheguei, não havia guincho, não havia nada. depois de um tempo consegui encontrar um mexicano que trabalhava para a Cruz Vermelha, e tinha uma ambulância. Ele me levou até a moto e avaliamos a situação. Estacionamos a ambulância, bloqueando a estrada e fomos tirar a moto do meio do mato. O cara disse que eu tinha sorte de ela ainda estar lá. Ela não cabia na ambulância, então a única solucão seria puxar. Ele pegou uma mangueira de incêndio e amarramos na frente da moto. Fui me equilibrando como pude até a pequena vila. Deprimente.
Folha E de que forma isso pode ser relacionado a história que a senhora mexicana te contou?
Pedro Henrique Foi comovente, era sobre dois jovens recém-casados. O marido era pescador, e um dia saiu para pescar. Ele jurou que voltaria, e ela que iria esperar. O barco, porém, jamais voltou. Conta a lenda que ela passou todos os dias e todas as noites no trapiche de San Blas, vestida de branco, esperando por ele, que nunca voltou. Ela esperou até morrer. O ponto aqui é de estar me sentindo tão bem e pensando naquela história, e pouco tempo depois estava naquela situação horrível, completamente ferrado.
Folha A sua moto quebrou algumas vezes e você teve que mandar buscar peças aqui no Brasil ou levá-la na ''bagagem'', de navio ou avião. Isso não torna a viagem mais cara?
Pedro Henrique Peças para a Suzuki DR 800 S Big só existem no Brasil e na Europa. A ''moto na bagagem'' é algo que só acontece quando um trecho não pode ser percorrido com ela, como o Oceano Atlântico. É um custo com o qual eu já contava.





