Rio, 27 (AE) - O ex-proprietário do Banco Marka, Salvatore Alberto Cacciola, foi indiciado por porte ilegal de arma de fogo, informou o procurador da República Artur Gueiros, um dos que investigam a quebra da instituição financeira. O indiciamento foi feito num dos quatro inquéritos originados a partir da investigação sobre a ajuda que o Marka recebeu do Banco Central (BC), após a desvalorização do real.
O inquérito apura a origem da carabina calibre 12, encontrada no carro do banqueiro, quando sua residência foi vasculhada pelo Ministério Público (MPF) e a Polícia Federal (PF), no início do ano. A arma é de uso exclusivo das Forças Armadas e outros órgãos de segurança. Cacciola também foi indiciado por aquisição de mercadoria contrabandeada.
O advogado de Cacciola, José Carlos Fragoso, garante que o cliente não sabia que a arma estava no carro. Segundo Fragoso, a escopeta foi dada ao seguranças do ex-banqueiro pelo pai de Cacciola, logo depois do sequestro sofrido pelo dono do Marka, em 1993. "Está admitida a vinculação", avaliou Gueiros.
"Outro dia, arrumando algumas coisas, a mulher do Alberto encontrou a arma e mandou o segurança levá-la embora", disse Fragoso. "Ele provavelmente esqueceu a arma no carro." O advogado afirma que Cacciola sequer viu a escopeta alguma vez. O Ministério Público e a PF pediram ajuda à Polícia Internacional (Interpol) para localizar a origem da arma.
Cacciola também deve ser indiciado no inquérito sobre a Teletrust Recebíveis e é investigado ainda pela aparelhagem eletrônica sem nota fiscal apreendida na mesma vistoria onde foi achada a arma. A Teletrust era uma empresa constituída para a emissão de debêntures, cujo lançamento foi coordenado pelo Marka
e pertencia a Luiz Carlos Barreti, advogado de Cacciola e sócio de Roberto Cruz Moisés, ex-cunhado do banqueiro.
O inquérito principal, sobre a quebra do Marka, deve ser enviado ao MPF no fim deste mês pelo delegado Luiz Pontel, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Delecoie), responsável pelas investigações, com o delegado Deuler Rocha. Com o resultado das perícias contábeis feitas nos documentos do banco, os procuradores da República devem terminar o inquérito em novembro, acredita Gueiros.
Envolvidos nas investigações desconfiam que Cacciola não cumpriu a promessa de "esquecer tudo" sobre o mercado financeiro, como escreveu no bilhete enviado ao ex-presidente do Banco Central (BC) Francisco Lopes, que motivou uma operação de busca e apreensão na casa do economista. Há a desconfiança de que ele continua a operar no mercado financeiro, por meio de laranjas. "Se você faz uma coisa por 30 anos e, de repente, é proibido de trabalhar nisso, vai fazer o quê?", questiona um dos responsáveis pelo caso.
Após o fechamento do Banco Marka fechou, Cacciola abriu um escritório sob o nome Marka Empreendimentos e Participações, que ocupa quatro salas num prédio comercial recentemente erguido na Barra.
"Tivemos de mudar da nossa sede no centro, que era muito grande, e mantemos o escritório porque a extinção do banco ainda não foi homologada pelo Banco Central", diz a ex-diretora-financeira e sócia de Cacciola, Cinthia Costa e Souza.
A empresa, com cinco funcionários, teria, segundo ela, a função de encerrar as atividades do banco. Fontes do mercado financeiro, porém, dizem que o ex-banqueiro usa a nova empresa para administrar os bens e fazer investimentos próprios. Dono de uma série de imóveis no Rio, Cacciola está à procura de um parceiro - uma incorporadora que queira usar esses imóveis para abrir um empreendimento de grande porte.
A família de Cacciola, italiana de Milão, possui também uma conceituada fábrica e rede de lojas de móveis projetados, a Lacca.
Enquanto não chegam ao fim as investigações, Cacciola está no exílio. Desde que estourou o escândalo envolvendo o banco, o Marka, e o BC, em abril, os amigos desapareceram do apartamento dele no condomínio Barra Golden Green, na Barra da Tijuca, zona oeste. O adjetivo não é exagerado: só o banheiro principal tem dois andares!
Também não há mais frequentes convidados na casa avaliada em R$ 2 milhões que ele tem no condomínio Mombaça, em Angra dos Reis, no litoral sul - vizinho do empresário Roberto Marinho, das Organizações Globo e do ex-banqueiro Jorge Paulo Lemann, do Garantia.
Cacciola, antes figura fácil em festas e eventos sociais
sumiu dos pontos de encontro dos ricos e famosos do Rio. Tem ido a Angra, mas refugia-se na casa. O ex-banqueiro também tem viajado para o exterior com a mulher, Adriana, uma ex-miss Brasil.

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