Cacciola diz que, se não houvesse socorro, BM&F quebraria
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sexta-feira, 23 de abril de 1999
Por Ribamar Oliveira e Cláudia Carneiro 
Brasília, 23 (AE) - O dono do Banco Marka, Salvatore Cacciola, disse em depoimento à Polícia Federal na quinta-feira (23) que se a operação de socorro ao seu banco não fosse feita a própria Bolsa de Mercadorias e Futuro (BM&F) quebraria.
"Se as posições não fossem zeradas naquele momento com certeza quebraria o Banco Marka, a corretora do banco, o Marka Bank, por consequência o Banco Stock Máxima, o membro de compensação Distribuidora Theca e, provalmente em primeiro de fevereiro (data do vencimentos dos contratos no mercado futuro de dólares) a própria BMF", afirmou.
Em recente entrevista à imprensa, o presidente da BM&F, Manuel Cintra, disse que não havia risco de quebra da bolsa. Segundo ele, o patrimônio da BM&F é de R$ 390 milhões e que existem três fundos de assistência com capital de R$ 133 milhões. Na carta que encaminhou ao Banco Central, o ex-superintendente da BM&F, Dorival Rodrigues Alves, alerta para a possibilidade de "risco sistêmico" no mercado se o BC não adotasse medidas que permitissem dar liquidez às instituições. O presidente da corretora Theca é Ney Castro Alves, vice-presidente da BM&F.
Ao ser obrigada a liquidar compulsoriamente os contratos de dólar no mercado futuro, a BM&F perderia a credibilidade, na avaliação de Cacciola. À Polícia Federal, o banqueiro disse que o real no mercado futuro da Bolsa de Chicago esteve sempre de 10% a 15% acima da sua cotação no Brasil "pelo risco institucional da BM&F".
No seu depoimento à PF, Cacciola informou que conversou com o ex-superintendente Dorival Rodrigues Alves "possivelmente depois do dia 20 de janeiro", mas disse que não se recordava do que tratou com ele. As operações de socorro do Banco Central ao Marka e ao fundo Marka-Nikko foram feitas nos dias 14 e 19 de janeiro.
Fundos - Cacciola reclamou, no depoimento à PF, do tratamento dispensado pelo Banco Central aos fundos Marka-Nikko que, no seu entender, foi diferente daquele dado aos fundos do banco FonteCindam.
"Ou o BC errou ao zerar as posições dos fundos do FonteCindam ou errou em não zerar, nas mesmas condições, ou seja, a R$ 1,322 por dólar, os fundos do Marka-Nikko".
O banqueiro informou que pediu "insistentemente" ao BC que zerasse as posições dos fundos Marka-Nikko. "Se a negociação com os fundos fosse fechada a R$ 1,32 por dólar, as perdas seriam de 15% no derivativo Marka-Nikko e 30% no Marka-Nikko derivativo plus", afirmou. Sem a ajuda, a perda do primeiro foi de 43,3% e do segundo de 94,8%.
Portaria - A forma como Cacciola entrou no edifício sede do BC para falar com o ex-presidente Francisco Lopes chamou a atenção dos senadores. O banqueiro disse à PF que se apresentou na portaria central do prédio e informou que queria falar com Francisco Lopes. Após algumas ligações dos atendentes foi autorizada a sua subida até o 20º andar.
O BC é rigoroso na identificação de pessoas que desejam ingressar em suas dependências, lembraram os senadores. Para passar pela portaria central é necessário que a pessoa tenha audiência marcada ou seja autorizada pela autoridade com quem deseja falar.
Cacciola insinuou que o economista Rubem Novaes ou o empresário Luiz Augusto Bragança, amigo de Francisco Lopes, podem ter intercedido a favor de sua entrada no BC. Disse que embora os dois o tenham acompanhado em sua viagem a Brasília, ficaram no aeroporto, na sala da Líder Táxi Aéreo.
Mas Cacciola informou que deixou o seu telefone celular com Rubem Novaes. No BC, Cacciola não conseguiu falar com Lopes e foi encaminhado a Alexandre Pundek, que era assessor especial do ex-presidente do BC.


