O cabo ficou com medo do soldado. Em depoimento no Fórum de Diadema, na Grande São Paulo, o ex-cabo da Polícia Militar Ricardo Luiz Buzeto disse ontem que não relatou aos superiores os abusos praticados pelos colegas no bloqueio da Favela Naval, em março de 1997, porque temia a reação do soldado Otávio Lourenço Gambra, o ‘‘Rambo’’. Ele era o mais graduado nas blitze em que Gambra matou o escriturário Mário José Josino e outros policiais são acusados de espancar os moradores. ‘‘Fiquei com receio de me tornar vítima’’, disse Buzeto. ‘‘Quando ia contar para o oficial, Gambra chegou perto e achei melhor não falar’’.
Ontem foi iniciado o julgamento do ex-cabo e de mais três policiais do caso Naval: os ex-soldados Rogério Nery Bonfim, que aparece no vídeo registrado por um cinegrafista amador espancando várias pessoas, Demontier Carolino Figueiredo e Adriano Lima de Oliveira. Chorosos, Figueiredo e Oliveira seguiram a mesma linha do depoimento de Buzeto: transferir as responsabilidades para Gambra e para o ex-soldado Nelson Soares da Silva Junior. ‘‘Estava com medo da minha própria vida’’, disse Oliveira à juíza Claudia Maria Carbonari de Faria, ao justificar a omissão.
Dos quatro, o que mais tem acusações é Bonfim: 12 abusos de autoridade. ‘‘Só abordei traficante’’, disse. Aos prantos, disse que gostaria de voltar para a PM. ‘‘Sei que errei ao agredir, mas tudo que eu queria era voltar para a companhia’’. Oliveira e Figueiredo são acusados de dois abusos de autoridade. Buzeto, por três abusos. Todos foram citados por co-autoria em homicídio qualificado e duas tentativas de homicídio, mas essa acusação tende a ser retirada.
A sentença dos quatro deve sair amanhça. É a segunda tentativa de julgamento dos quatro ex-PMs. No anterior, o advogado de defesa, Celso Machado Vendramini, abandonou o plenário do Tribunal do Júri de Diadema durante os trabalhos. Ele alegou que o promotor José Carlos Blat estava pedindo condenação semelhante para crimes diferentes. É possível que o promotor peça a absolvição de Oliveira e Figueiredo ao longo do julgamento.
Dos dez ex-PMs que participaram do bloqueio na Favela Naval, quatro foram julgados. Gambra foi condenado a 65 anos de prisão. O ex-soldado Maurício Gomes Lousada teve uma pena de 27 anos e 5 meses. O ex-cabo João Batista Queiroz e o ex-soldado Paulo Rogério Garcia Barreto tiveram a acusação de participação em homicídio retirada. Foram condenados a 4 anos e 2 meses e 4 anos e 7 meses, mas foram soltos porque já tinham cumprido um sexto da pena. Silva Júnior e o ex-sargento Reginaldo José dos Santos ainda serão julgados.

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