Cabeleireiro recorda tempos de hiperinflação
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de outubro de 1999
Por DENISE NEUMANN, Enviada Especial 
Buenos Aires, 30 (AE) Angel Zárate conta a história da economia argentina dos últimos 20 anos em cortes de cabelo. Sua mais triste lembrança é da hiperinflação. "No começo do mês, precisava fazer cinco cortes para pagar o aluguel do salão; no fim do mês, já precisava de 150", lembra ele, sem nenhuma saudade do tempo em que se chegou ao absurdo de pagar US$ 1 por quilo de açúcar de manhã e US$ 2 de tarde.
Pelo contrário: como todos com memória do período final do governo de Raúl Alfonsín, ele tem pavor do ano em que o custo de vida subiu 4.900%. "Eu fechava a peluquería (salão de cabeleireiro) às 3 horas da tarde e ia correndo comprar dólar no paralelo."
"Cheguei a cortar cabelo por US$ 1", acrescenta. Hoje, o preço médio, estável há oito anos, é US$ 12. No auge do governo Menem, Zárate tinha dois salões um masculino e um feminino e fazia quase 400 cortes por mês.
Os rescaldos da crise mexicana de 1995 que afetou a Argentina duramente, fez com que ela terminasse o ano com uma recessão de 2,8% e elevou a taxa de desemprego até o recorde absoluto de 18% obrigaram-no a fechar uma das portas e a concentrar todo o atendimento em um só local. Hoje, trabalham apenas ele e o irmão.
Zárate trabalha das 9 às 21 horas, de segunda a sábado, e atualmente faz cerca de 200 cortes de cabelo por mês. "Estão todos muito achicados, sem emprego e sem dinheiro", diz ele, usando o termo preferido dos argentinos para dizer que a renda diminuiu.
Paraguaio, veio para a Argentina aos 10 anos e está há 20 instalado num pequeno cômodo na Rua General Juan Domingo Perón, onde o cliente pode escolher entre ler o Clarínou edições novas e antigas da revista Carasargentina. Embora paraguaio, Zárate tem o direito de votar na argentina.
O trabalho de Zárate rende-lhe aproximadamente US$ 2,4 mil mensais, em uma cidade onde a renda média per-capita mensal é de US$ 428 e a cesta básica de uma família como a dele (casal e dois filhos) custa US$ 1,2 mil. "Só o aluguel me leva 50 cortes, mas pelo menos agora não muda nunca", diz ele.
Outros 70 cortes são necessários para pagar a hipoteca da casa que construiu para sua família na cidade vizinha de San Martín. A hipoteca está em dólar. São US$ 800 mensais, dos quais
diz, US$ 300 são apenas de juros e outros US$ 500 compõem o dinheiro que efetivamente tomou emprestado. Falta um ano para que sua dívida acabe. "Se o dólar sobe, estou perdido", diz.
Se essa hipótese se consolidasse, seria a segunda vez em que seus sonhos naufragariam. No Plano Austral, de Raúl Alfonsín
conta, se entusiasmou com a estabilidade e com o poder que tinham os US$ 500 mensais que conseguia retirar de seu salão.
Confiante, casou-se, comprou seu primeiro carro, pagava assistência médica privada e foi morar, de aluguel, em Belgrano, bairro de classe média. "A hiperinflação comeu tudo que eu tinha e voltei a morar com meus pais", lembra. "Os US$ 500 caíram para US$ 400, US$ 300, e no fim ganhava US$ 100 por mês."
Em 1983, conta, festejou o fim da ditadura militar. Ele era um das centenas de milhares de argentinos anônimos que lotaram a praia de Mar del Plata em outubro daquele ano. "Fiquei afônico de tanto gritar Alfonsín, Alfonsín. Depois me decepcionei muito."
O atual presidente argentino tem o respeito de Zárate, apesar das críticas à corrupção. "Ele trouxe muitas coisas boas
não só a estabilidade", observa. "Ele pôs a Argentina no mundo", diz, referindo-se a chegada de muitas empresas estrangeiras e à nova qualidade de serviço que elas introduziram no país.
"E no começo a Argentina cresceu muito, depois a crise internacional atrapalhou", acrescenta. Zárate elogia, mas também sofre com as privatizações. "O serviço telefônico é caro, mas há comodidade", pondera. O lado ruim fica por conta do preço. Antes, ele vinha trabalhar de carro.
Com a privatização da autopista, passaria a gastar 4 pesos por dia apenas de pedágio. Somando isso ao custo do estacionamento e da própria gasolina, seriam necessários 25 cortes de cabelo para bancar essa despesa. A alternativa foi combinar carro com metrô e reduzir esse gasto mensal para 10 cortes.
As duas filhas, Noélia, de 14 anos, e Betiana, de 11, estudam em escola pública. Saúde é no hospital público. "A qualidade é boa", diz.
"Ruim é no Paraguai", compara. Sua mulher, Ester, trabalha com ele nas sextas e nos sábados. Isso evita contratar mais uma pessoa e dividir o ganho que está curto.
Com saudades dos bons tempos do governo Menem, Zárate espera mudanças no futuro governo de Fernando de la Rúa, eleito presidente pela Aliança UCR-Frepaso.
As mudanças que espera incluem "trabalho para as pessoas, estabilidade, combate à corrupção e segurança". "Por sorte, nunca fui assaltado", conta. Por sorte e por precaução, porque à noite, enquanto ainda está atendendo, mantém o salão trancado com chave. Como a porta é de vidro, vê quando chegam os clientes.
Zárate quer que a população tenha trabalho para que seu negócio melhore.


