Washington, 19 (AE) - Com o combate ao narcotráfico no topo das preocupações dos Estados Unidos em relação à América Latina, por causa da situação na Colômbia, e a administração Clinton engajada numa ofensiva para mobilizar cooperação regional para sua política antidrogas, o candidato favorito do Partido Republicano à Casa Branca, o governador do Texas, George W. Bush
está sob forte pressão para esclarecer se contribuiu para a criação de demanda para o tráfico, no passado, consumindo cocaína.
Depois de negar-se a responder perguntas de jornalistas sobre o assunto durante semanas, afirmando que não entraria "no jogo de Washington" de reagir a rumores sobre questões pessoais, Bush foi forçado a mudar de atitude ao ser perguntado quarta-feira se, como presidente, manteria a norma que obriga funcionários federais e candidatos a cargos de confiança da administração a responder sobre o uso de drogas ilegais, no exame de antecedentes feito pelo FBI, para obter autorizacão para tratar de assuntos sensíveis.
"Meu entendimento é que o questionário atual pergunta se a pessoa usou drogas nos últimos sete anos", disse ele. "Eu terei o prazer de responder essa pergunta e a resposta é não."
Em lugar de encerrar o assunto, a explicação parcial reforçou as suspeitas e obrigou Bush a voltar ao tema nesta quinta-feira (19), durante visita a um centro de jovens na cidade de Roanoke, Virginia.
Sob o bombardeio de perguntas dos jornalistas, Bush, que lidera as pesquisas das eleições presidenciais de novembro do ano que vem, disse que passaria não apenas no teste sobre uso de drogas ilícitas aplicado atualmente pela Casa Branca ou num ainda mais exigente, cobrindo um período de quinze anos, que foi praticado entre 1989 e 1993, quando seu pai, George H. Bush, foi presidente dos Estados Unidos.
"Mas o senhor teria passado no teste dos 15 anos durante o governo de seu pai?", emendou um reporter. O governador do Texas fez uma pausa, franziu o cenho enquanto fazia as contas na cabeça e respondeu: "Sim. Vinte anos atrás eu fiz algumas coisas, cometi alguns erros e aprendi com eles", disse Bush. "Isso é tudo o que pretendo dizer."
Já sob críticas até de políticos republicanos por recusar-se a responder claramente se já usou drogas e agir como o presidente Bill Clinton, um mestre das respostas pela metade sobre questões embaraçosas, o político republicano usou uma frase que Clinton repetiu várias vezes durante o escândalo sexual que comprometeu seu governo e quase o tirou da Casa Branca. "Vou dizer (durante a campanha) que a política de destruição pessoal precisa ter fim
vou dizer que cometi erros e aprendi com eles", afirmou. "Se elas concordarem, espero que me dêem uma chance, se não concordarem, elas podem votar em outro candidato."
Como as respostas do governador não foram satisfatórias, sua assessora de imprensa, Mindy Tucker, teve que continuar a dar explicações depois da entrevista. Indagada se o governador passaria no teste dos 15 anos quando seu pai foi vice-presidente dos Estados Unidos (1981 a 1989), ela disse "Meu entendimento é que ele estava respondendo a perguntas sobre quando seu pai era presidente e não vice-presidente."
Trocando em miúdos, Tucker esplicou que o que Bush disse é que ele não usou nenhuma droga ilegal desde 1974, quando tinha 28 anos. não demorou para que o esclarecimento inspirasse uma piada entre os jornalistas. "O slogan da campanha de Bush será Drug Free Since 73 (livre de drogas desde 73)", disse um jornalista inglês, numa frase que rima em inglês.
Anteriormente, o governador do Texas, que tem 53 anos, já havia admitido ter tido problema de alcoolismo até os 40 anos, quando parou de beber.
A relutância do atual favorito à Casa Branca de responder de forma clara à pergunta já convenceu a maioria dos observadores de que ele consumiu cocaína durante a juventude. A questão é saber se é legítimo insistir na questão e se o fato de Bush ter usado essa droga no passado pode ou deve desqualificá-lo para disputar a presidência.
Gary Bauer, candidato republicano que representa a direita religiosa na disputa presidencial disse na semana passada que a pergunta é legítima e deve ser respondida porque envolve uma atividade ilegal.
Bauer e todos os demais sete aspirantes conservadores à Casa Branca já disseram que nunca usaram maconha, cocaína nem qualquer outra droga ilegal. Os dois candidatos democratas, o vice-presidente Albert Gore e o ex-senador Bill Bradley, admitiram ter experimentado maconha na juventude. Durante a campanha presidencial de 1992, Clinton disse que provou maconha um par de vezes quando era estudante na Inglaterra - "mas não traguei", esclareceu.
De acordo com uma pesquisa de opinião encomendada no primeiro semestre pela CNN e pelo jornal USA Today, pouco mais da metade dos norte-americanos acham que o público precisa saber se um candidato à presidência usou drogas no passado.
Pelo menos um líder republicano, o senador Orrin Hatch, um mormon de Utah, vê ameaça para Bush na controvérsia. "Creio que o governador está comentendo um grande erro ao não resolver essa questão", disse Hatch. "Por que não dizer que não usou, se de fato não usou drogas? E se usou, diga porque e como superou o problema."
É duvidoso, por exemplo, que a ala direita do Partido Republicano apoiará Bush se ele admitir que usou cocaína. Mesmo políticos e comentaristas moderados acham que, em contraste com o escândalo sexual envolvendo Clinton e a ex-estagiária na Casa Branca, Monica Lewinsky, que paralisou a política norte-americana no ano passado, a alegação sobre uso de cocaína por um pretendente à Casa Branca tem implicações políticas potencialmente graves porque envolve uma atividade ilegal e não um simples pecado.
Afinal, pelo menos metade dos mais de 1 milhão de pessoas presas atualmente nos Estados Unidos cumprem penas por crimes relacionados com o uso e o comércio ilegal de drogas.
"Centenas de milhares de americanos estão cumprindo sentenças mandatórias por terem sido apanhados com cocaína ou seu derivado
o crack", escreveu John F. Stacks esta semana na revista Time.
"Se Bush experimentou cocaína, como isso se coaduna com seu apoio à lei do Texas que põe atrás das grades pessoas flagradas com menos de um grama da droga?" Pode-se indagar, também, sobre a credibilidade e a cooperação que a política antinarcotráfico dos Estados Unidos teria na América Latina no governo de um presidente que se recusa a dizer se, no passado, já foi cliente do tráfico.

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