Bush e McCain travam batalha religiosa Da correspondente MONICA YANAKIEW
Washington, 28 (AE) - Grupos religiosos transformam a campanha para as eleições presidenciais de novembro numa batalha entre religiões. Na tentativa de assegurar o voto conservador e garantir a sua candidatura pelo Partido Republicano, o governador do Texas, George Bush, visitou há duas semanas a cristã Universidade Bob Jones, em Greenville, no Estado da Carolina do Sul - onde a direita protestante é forte. Cometeu o erro mais grave de sua campanha. Perdeu votos de católicos, aos quais acaba de pedir perdão em cartas distribuídas a várias igrejas nos EUA, reproduzidas nas capas dos principais jornais.
A universidade não apenas proíbe o namoro e o casamento entre estudantes de raças diferentes, como critica abertamente os católicos. Bob Jones Jr., filho do fundador, chegou a chamar o papa de "anticristo" e a Igreja Católica de "culto satânico".
Por ter visitado Bob Jones e não ter aproveitado a ocasião para fazer uma dura crítica à política de discriminação racial e religiosa da universidade, Bush ofendeu líderes católicos em estados politicamente mais importantes que a pequena Carolina do Sul. Um deles foi o deputado republicano Peter King, de Nova York, que apoiava o governador do Texas e agora faz campanha por seu adversário, o senador John McCain, do Arizona.
Numa carta endereçada ao cardeal John OConnor de Nova York (enviada também a igrejas em outros estados onde Bush disputará a candidatura republicana com McCain), o governador diz estar "profundamente arrependido" por ter causado uma "ofensa desnecessária" com sua visita à Universidade Bob Jones, cujos líderes têm "sentimentos anticatólicos e preconceito racial".
Um em cada três eleitores dos EUA é católico. "São muitos e estão concentrados nos 10 estados que contribuem com o maior número de membros do colégio eleitoral", explicou Michael Novak, do American Enterprise Institute. A lista de Novak inclui Califórnia, Massachusetts, Nova York e Ohio, cujos eleitores votarão no dia 7 para decidir quem querem para candidato dos Partidos Republicano e Democrata. Os outros são Texas e Flórida (governados pelos irmãos George e Jeb Bush), Illinois, Pensilvânia, New Jersey e Michigan.
Juntos, eles têm 255 dos 358 votos do colégio eleitoral, que em novembro escolherá o sucessor do presidente Bill Clinton entre dois finalistas. A disputa pela candidatura democrata já foi praticamente definida: o vice-presidente Al Gore está na frente do ex-senador Bill Bradley, o que lhe permite agora começar a atacar seus adversários republicanos, enquanto eles brigam entre si.
Foi justamente nas prévias do dia 22, em Michigan, que a batalha entre religiões começou. Bush obteve o apoio de Pat Robertson, o fundador da Coalizão Cristã - uma organização de 2 milhões de fiéis conservadores, a maior parte deles das igrejas protestantes, preocupados em proibir o aborto e impedir o casamento entre homosexuais.
Robertson telefonou para os eleitores criticando McCain. Hoje mesmo o senador revidou, comparando-o aos líderes sindicalistas (pelos quais os republicanos não costumam ter simpatia). Além de ser um movimento religioso, a Coalizão Cristã atua como lobby político: imprimiu 70 milhões de guias para explicar aos leitores da Bíblia o que está em jogo nas eleições.
O próximo presidente, explica Robertson, nomeará três juízes da Suprema Corte (a instituição que pode revogar uma decisão anterior permitindo o aborto) e 180 juízes federais. Mas seu apoio não ajudou Bush, que perdeu para McCain em Michigan. E as últimas pesquisas de opinião demonstram que também perderá nas prévias de Massachusetts, no próximo dia 7. Nesse estado, onde o voto católico tem peso, o governador do Texas tem apenas o apoio de 32% do eleitorado, enquanto o senador do Arizona (que tem adotado um discurso menos direitista) lidera com 59%.
Segundo John Zogby, um dos principais realizadores de pesquisas de opinião, a visita de Bush a Bob Jones também pode prejudicá-lo em Nova York e Rhode Island, onde metade dos eleitores republicanos são católicos.
"Os católicos representam 25% da população americana", diz Frances Kissling, presidente da organização Católicos por uma Escolha Livre, que tem sucursais no México, na Bolívia, na Argentina e em São Paulo. "No passado, por serem imigrantes irlandeses e italianos, a maior parte deles votava no Partido Democrata, que representava melhor os trabalhadores, mas esta realidade mudou."
Ao contrário dos membros da Coalizão Cristã, a maior parte dos católicos (68%) acha que os bispos não têm o direito de orientar os fiéis a votar contra um candidato, somente porque ele é a favor do aborto. "Isso não quer dizer que os católicos achem que o aborto seja bom, apenas acham, como aliás a maioria dos americanos, que o governo não deve decidir sobre questões da vida privada dos cidadãos", disse Kissling.
Dados da organização de Kissling (que também desempenha um papel político, educando católicos sobre seus direito de eleger seus líderes, sem submeter seu voto à aprovação da Igreja) demonstram que nas últimas eleições presidenciais 53% dos católicos votaram por Clinton e 37% pelo republicano Bob Dole.





