Bush e Kohl não tinham certeza do resultado dos acontecimentos
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sexta-feira, 05 de novembro de 1999
Por Andrew Nagorski 
Berlim, 06 (AE-NEWSWEEK) - Na memória da maioria das pessoas, as imagens hoje são vívidas como em 9 de novembro de 1989: alemães exultantes atravessando em levas o Muro de Berlim, supremo símbolo da divisão da Europa. É o momento que Berlim pretende recuperar nesta semana com uma fabulosa comemoração do décimo aniversário.
Raios luminosos e fogos de artifício vão iluminar a linha que o muro seguia através da cidade, culminando com uma celebração perto do Portão de Brandemburgo. O violoncelista russo Mstislav Rostropovich, que recebeu alemães-orientais com uma execução solo no muro uma década atrás, estará de volta, regendo 160 violoncelistas desta vez. Num banquete de gala no Hotel Adlon reconstruído ao lado, os três chefes de Estado que estiveram no centro do drama, Mikhail Gorbachev, Helmut Kohl e George Bush, serão os convidados de honra.
Uma década depois, o colapso do comunismo parece um script preparado de antemão: vitória do Solidariedade na Polônia em junho; a decisão da Hungria de abrir sua fronteira com a áustria no verão, permitindo que alemães-orientais começassem uma debandada que criou as condições para o 9 de novembro; a Revolução Incruenta da Checoslováquia; o fim sangrento do regime de Nicolae Ceausescu na Romênia e, em 3 de outubro de 1990, a reunificação formal da Alemanha.
Os principais participantes não tinham nenhuma certeza quanto ao resultado. Conforme conversas telefônicas entre Bush e Kohl recém-liberadas demonstram, os líderes mundiais se movimentaram para acompanhar o ritmo dos acontecimentos mesmo quando tentavam controlá-los.
Com tomadores de notas ao lado, Bush e Kohl sabiam que falavam para a História. Mas, em meio a suas declarações formais de firmeza e admiração recíproca, houve lampejos de emoção e mostras de personalidade. A Biblioteca Presidencial Bush pôs esses "memcons" - memorandos de conversas telefônicas - à disposição para uma mostra especial que será aberta no Museu dos Aliados em Berlim, em 9 de novembro.
Trechos exclusivos obtidos pela Newsweek nos registros da Casa Branca oferecem um quadro de bastidores na diplomacia telefônica de 1989. 23 de outubro de 1989, 9h02: Dezenas de milhares de alemães-orientais fogem através da Hungria. Outros buscam asilo na Embaixada da Alemanha Ocidental em Praga. Manifestantes que pedem liberdade tomam as ruas das maiores cidades alemãs-orientais. Kohl telefona para Bush descrevendo a situação. Kohl: "As mudanças na Alemanha Oriental são bem dramáticas. Nenhum de nós pode fazer um prognóstico. É enorme a agitação no meio do povo. As coisas ficarão inimagináveis se não houver reformas. Meu interesse é não ver tanta gente fugir da Alemanha Oriental, pois as consequências ali podem ser catastróficas... Estou preocupado com a (cobertura da) mídia que, cruamente, informa que os alemães estão agora envolvidos na Ostpolitik e em discussões sobre a reunificação e estão menos interessados no Ocidente. Isso é um absurdo completo... Sem uma Otan forte, nenhum desses acontecimentos no âmbito do Pacto de Varsóvia teria ocorrido..." Bush: "Concordo plenamente. Estamos tentando reagir muito cautelosa e atentamente às mudanças na Alemanha Oriental... Estamos recebendo críticas no Congresso, de democratas liberais, para os quais deveríamos estar fazendo mais para fomentar mudanças, mas não vou agir tão depressa a ponto de ser temerário." 10 de novembro de 1989, 15h29: Na noite anterior, o mundo havia visto, assombrado, os alemães-orientais derrubarem o Muro de Berlim. Kohl: "Acabei de chegar de Berlim. É como assistir a uma feira enorme. Aquilo tem o clima de um festival. As fronteiras estão totalmente abertas. Em certos pontos, estão literalmente derrubando o muro e construindo novos postos de revista... É uma coisa dramática; um momento histórico. Sem os Estados Unidos, este dia nunca teria sido possível. Diga isto ao seu povo." Bush: "Em primeiro lugar, deixe-me dizer como é grande nosso respeito pelo modo como a Alemanha Ocidental vem tratando tudo isto... Quero que nossos povos continuem evitando a retórica especialmente acalorada que poderia, por engano, causar um problema..." Kohl: "Obrigado. Transmita minhas felicitações a Barbara. Diga-lhe que pretendo enviar salsichas para o Natal." 17 de novembro de 1989, 7h55: Bush e Kohl discutem a reação soviética. Receiam que Moscou, que ainda tem 390.000 soldados na Alemanha Oriental, possa entrar em pânico. Kohl: "Tive uma longa conversa com Gorbachev. Claro que os soviéticos estão preocupados. Eu disse a Gorbachev que se (o líder alemão-oriental Egon) Krenz não executar reformas, o sistema vai fracassar." Bush: "É importante que os alemães entendam que eles têm o apoio e a simpatia de seus aliados... Apesar da atitude do Congresso, os Estados Unidos vão continuar discretos e apoiar reformas. O excesso de euforia nos EUA implica o risco de forçar ações imprevistas na União Soviética ou na Alemanha Oriental. Não vamos fazer exortações sobre unificação ou fixar cronogramas. Não vamos agravar o problema, o que ocorreria se o presidente dos EUA tomasse uma posição sobre o Muro de Berlim." 13 de fevereiro de 1990, 13h49: O regime alemão-oriental concordou com eleições livres em março, e Kohl acaba de voltar de uma visita a Moscou. Ele e Bush receiam que Gorbachev exija neutralidade da Alemanha como preço da unificação. Kohl: "A situação continua dramática. Entre 1º de janeiro e hoje, 80 mil pessoas vieram do leste para o oeste. Eis por que sugeri uma união monetária e uma comunidade econômica. Precisaremos exortar o governo a ser empossado depois de 18 de março a ir em frente com elas... Deixe-me dizer algumas palavras sobre minhas conversações em Moscou. Gorbachev estava muito descontraído. Mas os problemas com que ele se defronta são enormes - nacionalidades, a situação do abastecimento de gêneros alimentícios - e ainda não vejo uma luz no fim do túnel. Também discutimos a idéia de que os dois Estados alemães deviam estar atuando em conjunto com as quatro potências (os EUA, a Grã-Bretanha, a França e a URSS). Eu disse de novo a Gorbachev que a neutralização da Alemanha está fora de cogitação." Bush: "Ele concordou ou apenas ouviu? Como reagiu?" Kohl: "Tenho a impressão de que esse é o assunto que eles querem negociar, mas podemos vencer nesse ponto." 20 de março de 1990, 8h31: Nas eleições de março, os alemães-orientais apoiaram de modo esmagador a reunificação e a mudança democrática votando numa coalizão de partidos liderados pelos democratas-cristãos de Kohl. Bush: "Helmut... Você é bom demais para fazer campanha!" Kohl: "Obrigado... Os resultados são muito importantes para a Otan." Bush: "Helmut, sua posição firme sobre uma Alemanha unificada que continue sendo membro pleno da Otan é ótima... Precisamos continuar aguentando firme. Isto é de importância vital para a segurança e estabilidade européias e para os EUA." 30 de maio de 1990, 7h34: Gorbachev é aguardado em Washington para sua primeira visita desde a queda do muro. Bush e Kohl discutem a agenda. Bush: "Estou preparando-me para a grande visita (de Gorbachev)." Kohl: "É por isso que estou telefonando. Uma coisa muito importante que Gorbachev precisa entender é que, sejam quais forem os acontecimentos, vamos continuar aliados. E um sinal dessa cooperação é o vínculo comum da futura filiação, à Otan, de uma Alemanha unificada, sem restrições. Você deve deixar isso claro para ele, mas de modo amigável. Um segundo ponto: podemos chegar a um acerto econômico sensato com ele. Ele precisa muito de ajuda. Também precisa ficar sabendo que não pretendemos lucrar com sua fraqueza." Bush: "Vou garantir-lhe que queremos cooperar... Queremos que ele saia sentindo que teve uma boa conferência de cúpula." 17 de julho de 1990, 8h48: Kohl informa Bush sobre sua mais recente visita a Moscou. Kohl: "George, antes de mais nada, Gorbachev está em excelente forma... Tem consciência de sua situação especial e de suas responsabilidades. E sabe que precisa agir rapidamente, chegar ao pluralismo, mudar a sociedade e conseguir a legislação necessária até o fim deste ano. E eu lhe disse que não haverá chance de receber ajuda ocidental se ele não adotar essas reformas... Também discutimos longamente sua decisão de procurar modernizar seu país. Ele disse algo que eu nunca tinha ouvido antes. Contou-me que seu avô foi torturado e encarcerado no regime de Stalin. A mulher dele disse que o avô dela foi liquidado no regime de Stalin. Notável... Outra coisa interessante: conversamos sobre as relações germano-americanas pela nossa linha telefônica exclusiva. Eu lhe disse que essas relações têm grande importância. E disse que, se os soviéticos tentarem solapá-las, isso vai afetar as relações da Alemanha com a URSS. A resposta dele vai interessar-lhe. Gorbachev disse que eles aprenderam uma lição: que foi um erro tentar fazer com que os norte-americanos se retirassem da Europa, no que eles não tiveram êxito no passado. Finalmente, ele me impressiona como homem que se conhece bem e tem o dom de fazer ironias contra si mesmo. Ele queimou todas suas pontes. Não pode voltar e precisa ter êxito." 3 de outubro de 1990, 9h56: Quase um ano após a queda do Muro de Berlim, as Alemanhas Oriental e Ocidental se reunificam oficialmente. Bush: "Helmut! Estou reunido com membros de nosso Congresso e estou telefonando neste dia histórico para transmitir-lhe os melhores votos." Kohl: "As coisas estão indo muito bem. Estou em Berlim. Havia 1 milhão de pessoas aqui na noite passada, no mesmo local onde o muro se erguia - e onde o presidente (Ronald) Reagan pediu que Gorbachev abrisse esse portão. Palavras não conseguem descrever a emoção... Os presidentes americanos, a partir de Harry Truman até nosso amigo Bush, tornaram isto possível."


