Buscar ajuda russa é uma idéia inaplicável Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 08 (AE) - Para se livrar da lama de Kosovo, muitos países, em particular a França, solicitaram os préstimos da Rússia, potência eslava como a Sérvia. Não se trata de uma idéia maluca. Simplesmente ela é inaplicável, pois surge em um momento em que a Rússia, que se debate sob o leme descontrolado de Boris Yeltsin, faz água de todos os lados.
É na cúpula do Estado, ou seja, ao mesmo tempo nos círculos do Kremlin e nos meios "mafiosos" que a guerra foi deflagrada. As balas ricocheteiam sobre todas as orelhas, resvalam no primeiro ministro de Yevgeny Primakov, descabelam o presidente Yeltsin, arranham os especuladores como Boris Berezovski, ou certos altos funcionários como o procurador geral da Rússia, Yuri Skouratov.
Entender em profundidade esses combates nebulosos é uma tarefa impossível para alguém que não é russo. Assim tentaremos simplesmente mostrar o que está em jogo e as táticas.
Uma coisa é certa: o que se chama de "oligarquia" russa, e que seria melhor chamar de "máfia", foi pela primeira vez encostada contra a parede. Foi em Paris que o principal "oligarca", o bilionário Berezovski, soube que um mandado de prisão havia sido expedido contra ele em Moscou. De quebra, seu cúmplice, um outro bilionário, o banqueiro Alexander Smolenski, que está descansando na áustria, também recebeu uma ordem de prisão.
Uma palavra sobre Berezovski: esse homem que costuma passar temporadas na França, em uma mansão de marajá, na Costa Azul, possui, na Rússia, uma empresa de distribuição de automóveis, grande parte do Aéroflot, a companhia de petróleo Sibnetf, a primeira cadeia de televisão ORT, etc... Muito bem relacionado no Kremlin, todo-poderoso, sempre foi considerado intocável. Hoje, ele foi atingido.
Berezovksi, o amigo de Yeltsin, reagiu violentamente, em uma entrevista coletiva em Paris. E quem foi que ele denunciou?
Denunciou o primeiro-ministro Yevgeny Primakov. Parece assim, implicitamente, que a grande ofensiva anticorrupção de Moscou não se assemelha nem um pouco a uma operação "mãos limpas", como há alguns anos na Itália, mas a um acerto de contas políticas no mais alto nível - alguns até falam de um "fim de reinado".
Os especuladores imprudentes como Berezovski são o próprio símbolo da era Yeltsin. Suas fortunas prosperaram sobre a podridão moral e política do Kremlin. E neste momento, é o próprio primeiro-ministro de Yeltsin que lidera a acusação contra esses "bandos" e portanto contra Yeltsin.
Não é fortuito que esse ataque tenha estourado alguns dias depois que o procurador-geral da Rússia, Yuri Skouratov, foi demitido por Yeltsin. Sob que pretexto? Simplesmente porque o procurador meteu o nariz no império financeiro da família Yeltsin. Mas, até o momento essa demissão continua letra morta. O procurador Skouratov a considera anticonstitucional.
Ora, esse procurador tem apoio, em particular no Partido Comunista. Aliás, o outro adversário de Boris Yeltsin, o primeiro-ministro Yevgeny Primakov também parece contar com o apoio dos comunistas (o que não é de se admirar por parte desse veterano dos Serviços Secretos Soviéticos).
Assim, vemos posicionar-se os peões de uma batalha de vulto que através das pessoas como Yeltsin ou Primakov, Berezovski ou Skouratov opõem na verdade duas Rússias, uma mais liberal, a outra mais comunista, nenhuma delas mais ilibada do que a outra.





