Roma, 30 (AE-IPS) - Seja quem for o último culpado pela crise de Kosovo, observadores europeus e americanos coincidem que os bombardeios aéreos da Otan contra a Iugoslávia somente agravaram a sorte da população albanesa na região.
Por sua proximidade geográfica, a Itália é o receptor permanente de refugiados vindos da Albânia, e teme agora converter-se também no destino dos albaneses da Iugoslávia.
A ministra italiana do Interior, Rosa Russo Jervolino, encontra-se atualmente no norte da Albânia, à frente de uma missão que procura coordenar a recepção de refugiados no local, para evitar uma onda invasora nas costas nacionais.
Na Macedônia, as autoridades fecharam hoje (30) a fronteira para os refugiados, depois da chegada de uns 20.000 nas últimas horas, temerosas -segundo fontes italianas- de que os desabrigados de Kosovo se somem à sua própria minoria albanesa, criando um pólo de conflito étnico interno.
O êxodo albanês de Kosovo é o maior ocorrido na Europa desde que em 1995 forças croatas expulsaram cerca de 250.000 sérvios do território de Krajina, até então habitado por 90% de sérvios.
A solução ocidental à crise dos refugiados foi delineada hoje pelo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, quando afirmou que "a resposta ao que está ocorrendo é intensificar os ataques. Isto é o que vamos fazer".
Essa "solução" não é compartilhada pelo papa João Paulo II e por uma parte significativa -e crescente- do governo centro-esquerdista italiano, que corre o risco de perder a confiança da maioria do Parlamento, ou de mantê-la com os votos da direita.
No resto da Europa, em particular na França, também aumentam as dúvidas sobre se os bombardeios salvarão a longo prazo os albaneses de Kosovo ou se darão a oportunidade a Belgrado de repetir a experiência croata de Krajina.
Os países europeus têm manifestado esperanças na visita a Belgrado do primeiro-ministro russo, Yevgeny Primakov, que se reuniu nesta terça-feira por várias horas com o presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic.
O papa, por seu lado, convocou hoje os embaixadores dos países da aliança atlântica, Rússia e Iugoslávia para pressionar pela suspensão dos ataques e pelo reinício do diálogo.
Fontes do Vaticano indicaram que a hierarquia católica está preocupada com uma eventual nova cisão do mundo cristão entre católicos e ortodoxos depois de um lento processo de reaproximação que consumiu décadas.
Uma posição semelhante foi adotada pelo arcebispo de Canterbury, chefe da Igreja anglicana.
A Igreja ortodoxa, dominante na Sérvia, Grécia e Rússia, tem rechaçado categoricamente os ataques contra a Iugoslávia. O Conselho Mundial de Igrejas, que agrupa mais de 300 igrejas, enviou um pedido ao secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, por uma trégua imediata.
Calculava-se hoje em 80.000 os refugiados provocados pelas operações lançadas pelas forças sérvias na província de Kosovo, depois do início dos bombardeios da Otan.
Segundo o ministro do Exterior britânico, Robin Cook, a maior parte deles são partidários entusiastas dos ataques da Otan, e inclusive desejam que eles sejam intensificados.
"O ponto de vista dos albaneses é muito claro, muito forte: não parem agora, continuem", disse Cook à televisão britânica.
Mas é difícil perceber este entusiasmo guerreiro nos rostos perplexos dos refugiados, que caminham em filas sem fim, com as mãos vazias, até um destino incerto na Macedônia e Albânia.
Aparentemente surpreendidos pela determinação iugoslava e o crescente consenso registrado tanto na Sérvia quanto em Montenegro (as duas repúblicas da Federação Iugoslava), os jornalistas ocidentais começam a mudar o tom de sua cobertura.
O correspondente do diário americano Washington Post em Podjorica, capital de Montenegro, registrou que ali o presidente Milosevic está encontrando apoio até entre aqueles que há poucos dias eram seus fortes adversários.
Em Montenegro "como na Sérvia, que tem absorvido o grosso dos ataques aéreos da Otan, os sentimentos estão se convertendo rápidamente em simpatia a Milosevic", escreveu o correspondente.
Os diários italianos começaram também a dar mais espaço às versões iugoslavas, sobretudo depois da derrubada, no sábado, de um avião americano F-117 (Stealth), um aparelho considerado até então virtualmente imbatível.
A Itália encontra-se dividida e preocupada com uma guerra que está se ampliando a poucos quilômetros de suas costas, com um governo pressionaddo por seus seguidores -na sua maior parte contrária aos ataques- e seus compromissos com a Otan.
A Itália é a principal plataforma dos ataques contra a Iugoslávia, enquanto o governo do primeiro-ministro Massimo dAlema (ex- comunista) se esforça para evitar que suas forças entrem em combate.
Se elas entrarem, os ministros comunistas abandonariam o governo, que perderia assim uma importante base de apoio.
Os militares italianos estão autorizados apenas a participar em missões de apoio e proteção dos aviões atacantes e a disparar somente em defesa própria.
Mas o Ministério da Defensa informou na segunda-feira que uma resposta aos mísseis iugoslavos também podia ser considerada um ato de defesa própria.

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