Burocracia frustra negócio ambiental
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004
Vânia Casado<BR>Equipe da Folha 
Curitiba- A tentativa do governo italiano em formalizar a compra de créditos de carbono de nove empresas brasileiras ontem em Curitiba acabou frustrada. A assinatura dos contratos estava programada para a sede da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), mas não aconteceu. O vice-presidente da Fiep, Octaviano Duarte, que recepcionou a comitiva italiana liderada pelo diretor geral do Ministério do Meio Ambiente e Território da Itália, Corrado Clini, atribuiu o ''contratempo'' a um excesso de burocracia do governo brasileiro.
Segundo Duarte, a falta de assinatura dos contratos impediu que nove empresas brasileiras ganhassem US$ 5,6 milhões com a venda de 1 milhão de toneladas de carbono para o governo italiano. Esse volume corresponde a um contrato anual com duração de 12 anos, que foi cancelado de última hora porque o governo federal não reconhece as operações de compra e venda de carbono antes da assinatura oficial do Protocolo de Kyoto, o que ainda não aconteceu.
O protocolo prevê que um país ou uma indústria localizada em regiões cujo meio ambiente já esteja devastado possa compensar esse prejuízo com a compra de projetos ambientais que preservam a atmosfera, mesmo que sejam em outras regiões do planeta. Assim, evitam o aumento da poluição que provoca desequilíbrio ecológico em todo o mundo.
Das nove empresas, seis empresas paulistas, uma de Mato Grosso e duas da Bahia já estão com projetos prontos para serem oferecidos ao governo italiano. O vice-presidente da Fiep se empenhou em trazer a solenidade para Curitiba e despertar nos empresários paranaenses a possibilidade de obter receita com projetos ambientais. Segundo ele, essas empresas tiveram seus projetos certificados pela Ecoenergy, certificadora credenciada, e vão transformar biomassa em energia renovável.
Octaviano Duarte identifica nas usinas de açúcar e álcool uma grande oportunidade para participar desse mercado. Segundo ele, os projetos aprovados prevêem a transformação do bagaço de cana-de-açúcar em energia elétrica. Com isso, as usinas conseguem renda com a venda de energia elétrica, consumo próprio e venda de carbono. Todas essas empresas substituíram o antigo combustível (fuel-oil) por bagaço de cana.
Enquanto os contratos não são assinados, representantes do governo italiano permaneceram em Curitiba para manter contatos com empresários paranaenses. Ontem iniciaram negociação com a empresa do ramo madeireiro Águia Florestal, de Ponta Grossa. O representante do grupo Votorantim, Mario Fontana, informou que a indústria de cimento está interessada em participar do projeto.
De acordo com o vice-presidente da Fiep, o governo italiano anunciou a disposição de investir US$ 15 milhões, na tentativa de reduzir um déficit ambiental naquele país. A Itália deve adquirir mais 36 milhões de toneladas de carbono até 2012.
O coordenador de Mudanças Globais do Clima, do Ministério da Ciência e Tecnologia, José Miguez, disse ontem via assessoria que o governo Lula não discorda do trabalho da Fiep de incentivar projetos que compatibilizam preservação ambiental com desenvolvimento. Mas ressaltou que qualquer acordo internacional que represente custos para o Brasil deve ser aprovado pelo Congresso brasileiro.


