Buraco do medo
Na reta de chegada para a festa da democracia, para a qual todos estão convidados - as eleições, domingo que vem -temos esses últimos dias para examinar os programas e decidir, na esperança de realização dos sonhos dos tão esperados dias melhores.
Prepare-se, então, para o chamado ''fim de feira''. É a tal transição. Quem ainda está, já era. Quem vai assumir, passa a ser cortejado. Os camaleões começam a desfilar, mudando de cor de uma hora para outra, com a mais espantosa das naturalidades.
Uma pesquisa suprapartidária mostra uma preocupação muito grande do eleitor com o emprego e a segurança. Alia uma coisa a outra, umbilicalmente. De quebra, acredita-se que o Governo Federal, apesar da constitucional autonomia dos Estados, tem muito a ver com esses pesadelos. Acho que esta é a palavra: desemprego é pesadelo. A violência que destrói e amedronta, outro pesadelo. Os candidatos sabem disso e mencionam o binômio em toda escala de concorrência, para o Legislativo e o Executivo. Para acordar do pesadelo, temos que pensar. Na coleira do FMI, questionamos o modelo econômico. Fernando Pessoa nos ajuda a entender o momento presente com uma frase lapidar: ''É mister que a desorganização chegue a um estado agudo, para que os mais letárgicos se convençam que têm que agir ou ajudar a agir''. Estamos no estado agudo. Um buraco do qual queremos sair, por a cabeça para fora e finalmente - ufa! - respirar aliviados.
Quando vemos e percebemos tanta coisa fora de prumo nos conduzindo para essa fase de ausência de normas, impunidade, desigualdades, demagogia, cara-de-pau, descalabros e incompetência, nos irritamos. Dizem alguns que seria esta a ira santa, a ira do inconformismo, a ira de busca de resultados, a ira para reverter esse quadro. É um antropomorfismo. Falar terrestremente de coisas divinas.
O professor Fernando Scaff, doutor em direito constitucional pela Universidade de São Paulo, analisa num ensaio, usando como parâmetro as Faculdades de Direito, coisas que permeiam outras áreas de formação e que podem nos ajudar a compreender conteúdos e formas e os reflexos na sociedade. Diz ele que ''os meninos e meninas que entram nessas escolas, usualmente tomados de uma ''ira santa'' de modificar o mundo, são transformados em meros decoradores de artigos e parágrafos, sem nenhuma conexão com aquele desejo inicial de transformar a sociedade posta e imposta''. Porque ''acabam por serem meros repetidores do ''status quo'', ao invés de trabalharem para a ultrapassagem de paradigmas velhos e descabidos, que não mais condizem com a nossa realidade''. Scaff denuncia uma ''genuflexão ao todo poderoso cliente que nos coloca frente a situações onde os princípios da ética são esquecidos''.
Confira essas palavras com as áreas do saber que você conhece. As luvas de Scaff podem entrar em muitas mãos. E a carapuça também. Aqui devem entrar os figurinos dos candidatos. Na grande festa do voto, você decide.





