Brizola tenta isolar Garotinho para lançar Itamar
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quarta-feira, 02 de junho de 1999
Por Wilson Tosta 
Rio, 03 (AE) - Mais de três anos antes das eleições para a sucessão para o Palácio do Planalto, o presidente nacional do PDT, o ex-governador Leonel Brizola, já trabalha para abortar as pretensões presidenciais do governador do Rio e seu colega de partido Anthony Garotinho. O líder máximo do PDT tem defendido que os partidos de esquerda se unam e lancem a candidatura do governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), à Presidência da República. A pregação é vista na oposição como forma de esvaziar as ambições do governador fluminense para 2002.
Garotinho, que nega ter intenção de sair do PDT, criticou o presidente de seu partido e disse ser postulante ao Palácio do Planalto nas próximas eleições. Foi nesse contexto de disputa por espaço para 2002 que foi interpretada entre os oposicionistas a mais nova troca de ataques entre Brizola e o governador, na semana passada.
Na ocasião, o presidente nacional do PDT, diante da desenvolta movimentação de Garotinho por gabinetes do governo em Brasília, afirmou que seu colega de partido precisava, antes de pensar em concorrer à Presidência da República, tratar de fazer um boa administração no Rio. "Por enquanto, ele foi um comunicador", atacou.
Fusão - Brizola também tentou acelerar, com a colaboração do presidente nacional do PSB, Miguel Arraes, a fusão das duas legendas, para atrair a dissidência do PMDB e o governador mineiro. "Se continuar com suas críticas à política econômica, Itamar Franco poderá ser candidato da esquerda", afirmou o presidente pedetista, em um encontro em Brasília no dia 21 de maio, em que acertou a formação de uma comissão mista com o PSB para tratar da fusão.
Da reunião também participaram os deputados do PMDB Paes de Andrade (CE) e Marcelo Barbieri (SP). Os dois deixaram claro, porém, que, pelo menos por enquanto, não pretendem aderir ao novo projeto partidário. A reação negativa do resto da cúpula socialista congelou, pelo menos momentaneamente, a articulação da nova legenda - que deverá chamar-se PTS (Partido Trabalhista Socialista) - que Arraes vinha discutindo sozinho.
O governador do Rio entendeu a deixa de Brizola e, no mesmo tom áspero, mirou Itamar para atingi-lo. Garotinho lembrou que o governador de Minas Gerais, atualmente tão crítico das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, vendeu a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) quando era presidente.
Moratória - Com isso, Garotinho tocou em um nervo: era precisamente a venda da CSN, um dos ícones do nacionalismo trabalhista, um dos motivos para Brizola alimentar, até há pouco tempo, reservas em relação a Itamar. Reservas que foram revogadas após a decretação da moratória mineira.
Em mais uma divergência com o comando de seu partido, o governador do Rio afirmou que quem prega que ele, antes de ser candidato, precisa fazer um bom governo no Rio, deveria ter pensado nisso quando foi candidato. Um óbvio recado a Brizola, que disputou duas vezes a Presidência sob críticas pesadas por problemas em suas administrações no Rio.
O governador do Rio também criticou a tentativa de fusão com o PSB. "Soube disso pelos jornais", reclamou. "Não podemos isolar o PT." Em um jantar com o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), ele acenou com a possibilidade de uma fusão partidária que incluísse o PT, o que não é bem visto por Brizola. Passada a troca de ataques, o presidente do PDT e Garotinho não se falaram.
Uma tropa de bombeiros, principalmente integrantes da bancada federal do PDT, entrou em cena para tentar esfriar a situação e diminuir o estrago no partido. Os dois lados baixaram as armas, pelo menos publicamente. "Eu e minha mulher às vezes brigamos, mas nos amamos", declarou o governador do Rio, tentando amenizar o clima. "Está tudo bem."
Na verdade, tanto o governador do Rio como o presidente do PDT avaliam que ambos perderiam mais do que ganhariam se Garotinho deixasse a legenda no momento, provavelmente a parte governista de seu partido. O conflito, porém, pode ter data marcada para um desfecho.
Em 2000, o PDT terá de escolher seu candidato a prefeito da capital. Garotinho defende a candidatura de sua vice, a petista Benedita da Silva - o que faz parte do acordo com o PT que ajudou a elegê-lo -, mas Brizola acha que os pedetistas deveriam ter um candidato próprio.
O racha da frente de esquerdas em 2000 parece inevitável. O PSB, outro integrante da coligação, já discute o nome do socialista que vai representá-los na disputa, o que afastaria totalmente a possibilidade de reedição da união que deu às esquerdas a vitória no Rio de Janeiro, na eleição do ano passado.
Além da briga com Brizola, Garotinho tem de administrar uma relação com o PT - aliado fundamental para a sua vitória na campanha eleitoral -, que se tornou tumultuada nas últimas semanas. Teve péssima repercussão entre os petistas a crise que resultou na demissão do engenheiro Marcos Montenegro, um quadro do partido, da presidência da Companhia Estadual de águas e Esgotos (Cedae). O governador do Rio acusou Montenegro, um técnico prestigiado no PT e ligado a José Dirceu, de ser incompetente, o que foi recebido por parte do PT como um insulto aos petistas.
O fato novo nas divergências com o PT é que, ao contrário de outros momentos do passado, quando era a esquerda petista que reclamava, desta vez as queixas atravessam os dois setores petistas que bancam a aliança com o PDT no governo: a Articulação e, principalmente, a ala ligada ao deputado Carlos Santana (RJ).
"Quando o PT se reúne, é para reclamar da falta de espaço no governo", conta um petista ligado a Santana. A briga com Montenegro ampliou as mágoas que já marcavam o governo, com falta de verba e autonomia para secretários petistas.


