Rio, 12 (AE) - Um dia depois que o governador do Rio, Anthony Garotinho (PDT), ameaçou renunciar ao cargo, o presidente nacional do partido, Leonel Brizola, lhe fez hoje um pedido público de "serenidade, sinceridade e responsabilidade" e afirmou desejar que "acate a maioria" na escolha do candidato a prefeito da capital. Brizola declarou esperar que Garotinho "esteja à altura dos deveres e do equilíbrio que o cargo exige e tenha a grandeza de debater suas posições no campo das idéias, defendendo posições com argumentos e não com destemperos ou com o uso da máquina pública para pressionar e dividir seu partido".
"Pessoalmente, espero que o governador faça uma reflexão madura, adulta e profunda sobre tudo isso", afirmou. Ele disse que a decisão de cancelar a reunião do diretório regional da última sexta-feira, "foi antes mais um gesto de boa vontade para com o governador", comentou, tentando descaracterizar que tenha recuado no episódio. Brizola declarou ainda que o PDT não deixará de se esforçar para encontrar uma solução para o caso do governador, "que preserve a vontade da população, com políticas públicas formuladas e executadas de acordo com os princípios do seu partido e da aliança que o elegeu". Repercussão - Pedetistas que participaram da reunião de ontem do conselho político estadual do PDT - na qual Garotinho disse que entregaria o cargo ao partido se seus dirigentes lhe dessem uma carta dizendo que não cumprira alguma diretriz partidária- ainda se confessavam hoje impressionados com o episódio. Em meio ao ambiente de confronto com o grupo de Brizola, no encontro, Garotinho demonstrou grande auto-suficiência, segundo os relatos.
"Não tenho nenhuma autocrítica a fazer de nada que fiz no meu governo", afirmou ele, conforme participantes da discussão. Depois de sair intempestivamente da reunião em que fizera a ameaça de renúncia, Garotinho dirigiu-se ao Palácio Guanabara, sede do governo estadual, e, segundo testemunhas, chegou a esvaziar gavetas, numa atitude de quem realmente se preparava para ir embora. A comissão de dirigentes que foi levar-lhe a proposta de acordo, formada pela líder do governo na Assembléia, Graça Mattos, e pelos secretários de Governo, Carlos Lupi, de Desenvolvimento Econômico, Tito Ryff, e da Criança e Adolescente, Fernando William, encontrou um ambiente de ansiedade e comoção.
Garotinho avisara a parentes, amigos e a seu grupo que estava saindo e dizia que voltaria para Campos, cidade do norte fluminense onde tem base política, para disputar a prefeitura. Os pedetistas ofereceram o acerto: o diretório do PDT aprovaria uma resolução assumindo que terá candidato próprio, mas que continuará lutando para preservar a frente com o PT (Garotinho não quer a candidatura própria e quer apoiar a vice-governadora, Benedita da Silva, do PT) e só oficizalizaria o candidato em julho. Em troca, não haveria a reunião marcada pelo governador para amanhã, para discutir a "democratização" do PDT.
O governador não aceitou e contrapropôs que se não houvesse nenhuma reunião - nem a de sexta, nem a amanhã. Brizola foi consultado por telefone e aceitou. Integrantes do grupo brizolista avaliam que a radicalização de Garotinho se deve ao temor, pelo governador, de que o presidente do PDT realmente seja candidato a prefeito, como ameaça, e cresça politicamente, inviabilizando seus planos para ser candidato a presidente. Garotinho já sinalizou, segundo pedetistas, que quer garantia antecipada de que será candidato do PDT à Presidência, o que Brizola não aceita dar.
"Garotinho costuma dizer que tem dois livros de cabeceira, a Bíblia e Maquiavel, que são opostos", observou um dirigente do PDT. "Ontem foi Maquiavel".

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