British Gas e Shell pagam ágio de 119,32% pela Comgás
São Paulo, 14 (AE) - A British Gas, com parceria da Shell Brasil, arrematou hoje a Companhia de Gás de São Paulo (Comgás) por R$ 1,652 bilhão, valor que supera em 119,32% o preço mínimo fixado para o lote de ações da companhia posto em leilão, de 52,68%. A companhia inglesa passa a ter 70% do capital votante da Comgás. Foi um dos maiores ágios já verificados nas privatizações brasileiras, perdendo só para os leilões da banda B de telefonia celular.
Esse foi um dos maiores investimentos da companhia inglesa - no Brasil, já estão entre os cinco maiores fora da Inglaterra, mas a intenção é que fique entre os três primeiros, de acordo com Andy Barre, vice-presidente mundial da British Gas para a área de Estratégia e Negócios.
A empresa tem faturamento anual de US$ 7 bilhões e alcançou no ano passado lucro líquido de US$ 1,3 bilhão. É a maior empresa integrada de gás no mundo. "O Brasil é estratégico para a empresa, que estabeleceu como meta focar seus negócios no Cone Sul, desde a produção de energia térmica até a transmissão e distribuição de gás natural", disse o presidente da British Gas para a América do Sul, Dioclecio de Araujo Filho.
O objetivo é crescer no segmento industrial, no qual a Comgás já tem participação expressiva, e de termoelétricas. O preço, segundo Araújo Filho, será a arma para ganhar a clientela
que verá vantagens em o óleo combustível pelo gás natural.
De acordo com Pedro José Manfrin, sócio da consultoria Deloitte Touche Tohmatsu, foi justamente a importância de ter negócios no principal mercado potencial da América Latina, dentro da estratégia global da empresa, que definiu o ágio a ser pago pela empresa.
Afinal, a participação do gás na matriz energética brasileira é extremamente modesta, de apenas 2%, e a previsão é que cresça para 12% num período de oito a dez anos. A Argentina, por exemplo, onde a British Gás tem o controle da MetroGás, já é um mercado maduro.
Até porque, lembrou o secretário de Energia de São Paulo
Mauro Arce, não existe mais possibilidade de expansão depois de Porto Primavera, a última hidrelétrica construída em São Paulo. Por isso, ele considera as metas de crescimento estabelecidas em edital até acanhadas, considerando o aumento da oferta de gás que virá através do gasoduto Brasil-Bolívia.
Concorrentes - Foi de olho nesse filão que a British Gas desbancou concorrentes de peso, como a Enron, que ofereceu ágio de 70%, a italiana Agip, líder na distribuição de gás liquefeito de petróleo no Brasil, cujo lance foi 68% superior ao preço mínimo, e o grupo liderado pela espanhola Gas Natural, cuja proposta embutiu um ágio de 22%.
A Bristish Gas está presente em vários negócios da área de gás no Brasil e na América do Sul. É sócia da Petrobrás no gasoduto Brasil-Bolívia, com 10% do empreendimento avaliado em US$ 1,8 bilhão, que deverá começar a fornecer gás no próximo mês.
A conclusão da segunda etapa do projeto, que permitirá transportar o gás até Porto Alegre, deve ficar pronta no último trimestre do ano, segundo cálculos da empresa.
No Brasil, a companhia ainda desenvolve três outros projetos para construção de termoelétricas, uma em Macaé (RJ), e outras duas no Paraná, cada uma com potência de 350 a 450 megawatts. Os investimentos estão estimados em torno de US$ 400 milhões para cada termoelétrica.
Na América do Sul, a Britsh Gas tem participações em empresas que exploram gás na Bolívia. Tem ainda 40% do gasoduto Cruz del Sur, um projeto desenvolvido em parceria com a americana Pan American para trazer gás da Argentina e a ANCAP, a estatal uruguaia de energia, além da MetroGas, distribuidora de gás argentina responsável pelo atendimento de 1,9 milhão de clientes.
Presente no Brasil há décadas, a Shell já era dona de 19 8% do capital votante da Comgás. As ações foram adquiridas da prefeitura do município de São Paulo. No consórcio Integral Holding, vencedor do leilão, a British Gás tem maioria absoluta do capital, com 95%; os 5% restantes são da Shell Brasil, que, dessa forma, aumenta a presença na distribuidora paulista para cerca de 26%.
De acordo com Gilbert Landsberg, vice-presidente da Shell Brasil, a estratégia de participação no consórcio era ter parceria que garantisse a melhor distribuidora de gás do País. Essa visão não mudou, segundo ele, depois da decisão do governo paulista de dividir o estado em três áreas de concessão, criticada publicamente pela empresa. "Continuamos achando que não faz sentido", observou.
A parceria entre as duas companhias não foi costurada na última hora, como tradicionalmente ocorre nas privatizações. O vice-presidente da Shell afirmou que desde o ano passado as duas empresas vem conversando e os investimentos na Comgás devem superar os R$ 120 milhões exigidos pelo edital para este ano e ultrapassar os R$ 80 milhões no próximo ano.





