Britânico diz que cultivar soja transgênica no Brasil "é burrice"
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domingo, 06 de junho de 1999
Por Sandra Sato e Mariângela Heredia 
Brasília, 07 (AE) - O consultor para assuntos ambientais do governo britânico, Julian Kinderlerer, afirmou hoje "ser uma burrice, sob o ponto de vista econômico", o Brasil ter autorizado a produção e a comercialização de soja transgênica. Segundo ele, o Brasil poderia ganhar com exclusividade o mercado europeu por produzir soja tradicional, já que os outros principais produtores, como Estados Unidos e Argentina, estão investindo pesadamente na modificação genética.
Cientificamente, no entanto, Kinderlerer reconhece que o Brasil adotou a decisão correta. Para ele, não se pode ignorar a biotecnologia. "Parar com essa tecnologia agora pode ser um desastre absoluto", comenta. Na opinião dele, a biotecnologia pode vir a ser um instrumento para produzir "mais comida, para mais pessoas e no lugar certo", apesar de que por enquanto esse objetivo não está sendo alcançado.
Kinderlerer - que veio ao Brasil participar de um seminário sobre transgênicos no Senado - diz que dois terços da população mundial não tem comida suficiente e o outro um terço possui demais. "A grande preocupação nos próximos dez a quinze anos será como produzir alimentos suficientes para a população mundial." Ele lembra que metade da comida consumida no mundo é baseada em arroz e trigo, mas as pesquisas de modificação genética estão mais concentradas em soja, algodão e milho com alterações que levam simplesmente à maior tolerância a herbicida ou resistência a insetos e não se melhora a qualidade nutricional. Para ele, seria útil aplicar a biotecnologia no arroz, porque hoje metade da produção é perdida com a ação de insetos e pragas.
Impacto - O PHD em microbiologia ressalta ainda ser importante que cada país faça a sua própria análise de impacto ambiental. "Pode-se aproveitar a experiência de outro país, não vamos reinventar a roda", disse. Mas insistiu que cada país tem o seu próprio meio ambiente e os resultados das pesquisas não devem ser generalizados. "A análise dos transgênicos deve ser feita caso a caso", defendeu. No Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou a plantação comercial da soja roundup ready sem prévio estudo de impacto ambiental. A comissão aceitou os dados apresentados pela Monsanto dos testes feitos nos Estados Unidos.
Segundo Kinderlerer, quaisquer mudanças no processo agrícola, mesmo as adotadas na produção tradicional, provoca impacto no meio ambiente, principalmente na Europa, onde, em média, 80% do território é aproveitado na agricultura, ao contrário dos Estados Unidos. Ele conta que o parlamento na Europa recomenda a realização de análise de risco do produto transgênico de forma ampla envolvendo o meio ambiente e a saúde humana e animal e, ainda, que se considere a possibilidade de não usar a tecnologia.
"Na Europa, nós não precisamos de transgênicos", concluiu, observando, no entanto, que se os países parassem os experimentos poderiam condenar a população africana a morrer de fome porque aumentaria a resistência mundial ao consumo de produtos modificados geneticamente. Ele garante ainda que a posição européia nada tem a ver com disputa tecnológica com os Estados Unidos, que investem mais e são pioneiros na área dos transgênicos.


