Brazil, no Tennessee, está dividida quanto ao candidato em que votar18/Mar, 13:33 Por Monika Yanakiew, enviada especial BRAZIL, EUA , 18 (AE) Nos seus 85 anos de vida, Dorothy Lewis nunca viu de perto um presidente dos Estados Unidos, nem o atual vice-presidente, Al Gore, "um rapaz do Tennessee", seu Estado. "Aqui conhecemos ele tão bem quanto a maioria dos americanos: pela televisão", diz a professora aposentada, rindo, num inglês arrastado, marcado pelo forte sotaque sulista. Mas tanto Dorothy quanto muitos dos 400 habitantes de Brazil recordam aquela tarde ensolarada, em 1949, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra visitou seu pequeno município rural, a 300 quilômetros de Nashville, a capital da música country, recentemente convertida em importante sede de empresas de administração hospitalar e de seguros saúde. "Nos reunimos todos na Igreja Metodista, para tomar um cafezinho brasileiro e um dos vizinhos trouxe um presunto para o presidente Dutra, para que ele pudesse levar algo do Tennessee de volta à América do Sul", conta Dorothy. "Ele prometeu ajudar na construção de um centro comunitário, mas por engano o dinheiro nunca chegou aqui. Foi parar em outro município, chamado Brazil, que fica no Estado de Indiana." Dutra conheceu Brazil, no Tennessee, por acaso. Ele tinha ido a Humboldt, uma cidade vizinha, para visitar o general Claude Adams, veterano da 2.ª Guerra Mundial. Adams aproveitou a ocasião para levá-lo ao município batizado em homenagem a seu país, apesar de o nome, em inglês, ser com "z". Na época da visita do general Dutra, Albert Buckingham tinha 12 anos. Seu pai era dono de um armazém - até hoje o único da cidade, que tem duas ruas e uma centena de casas. Ele tirou fotos com o presidente brasileiro e colou uma delas na vitrine da loja, sempre utilizada como local de votação em época de eleição. O retrato com o jovem Albert acenando uma bandeira dos Estados Unidos ainda está na vitrine do armazém Buckingham, na Rua Brazil. Mas este ano, os moradores da cidade (a maior parte deles fazendeiros) votarão nas eleições presidenciais no pequeno posto de bombeiros, que acaba de ser construído. "Eu sempre soube que um presidente brasileiro passou pela cidade, por causa da foto, e cheguei a pensar em me mudar para lá quando as coisas ficaram pretas aqui", conta Jim Wess, hoje com 51 anos. A família dele tinha uma pequena plantação de algodão que, como muitas outras, deixaram de ser produtivas e foram absorvidas por fazendas maiores. "Eu só sabia que o Brasil ficava na América do Sul e imaginava que tinha muita terra para os pequenos fazendeiros do Tennessee, que sempre viveram de algodão, milho e soja", diz Jim, que nos finais de semana veste suas botas e seu melhor chapéu de cowboy para beber cerveja com amigos e dançar quadrilha no bar Wild Horse, em Nashville. "Mas acabei ficando no Tennessee." Hoje, Jim trabalha para o Departamento de Transporte do Tennessee - antigo reduto do Partido Democrata, do ex-senador Albert Arnold Gore, que morreu em dezembro de 1998, e de seu filho, o vice-presidente e candidato às eleições presidenciais de novembro. Mas o governo do Estado agora está nas mãos do Partido Republicano. "A economia do país está bem agora, mas a situação não melhorou em Brazil", diz Jim. Quando ele abandonou sua fazenda, o município tinha uma igreja metodista, outra batista, o armazém Buckingham, um matadouro, um local para processar algodão, e um barbeiro. "Hoje sobraram apenas as igrejas e a loja; os jovens foram buscar trabalho em cidades maiores", explica. Segundo Dorothy, Jim não foi o único a sonhar com um futuro na América do Sul. "Nosso município antigamente chamava-se Tin Hook (gancho de lata)", explicou. Um dia, segundo a lenda, uma família de outra cidade se instalou ali temporariamente. Estava a caminho do Brasil, mas tive de interromper a viagem porque era inverno e um de seus membros ficou doente. "Foram tratados tão bem que, quando a primavera chegou, decidiram ficar", contou Dorothy. Sempre que a família encontrava seus novos vizinhos, alguém, brincando, perguntava se estavam gostando do Brasil. Tantas foram as piadas, que o município acabou mudando de nome. "Mas a lenda nunca foi confirmada", diz Rebecca, mulher de Albert Buckingham. Em novembro, os eleitores do Tennessee e dos outros 49 Estados americanos escolherão um sucessor para o presidente Bill Clinton. Mas o município está dividido. Dorothy já decidiu que votará em Gore. "Sou democrata e a nossa economia nunca esteve tão bem, desde os tempos do presidente Franklin Roosevelt", explica ela. "E como está a economia do Brasil? Imagino que o presidente Dutra morreu, porque ná época em que esteve aqui já tinha cabelo branco." Mas nem todos os moradores de Brazil simpatizam com Gore mesmo sendo ele filho de conhecido político do Tennessee e tendo passado as férias de verão na fazenda do pai, plantando tabaco e cuidando do gado. De 1972 até as últimas eleições presidenciais de 1996, a maior parte dos eleitores do Estado votou no Partido Republicano. "Aqui, na nossa cidade, os votos estão divididos pela metade", calcula Rebecca. A própria Rebecca ainda não decidiu, mas diz que simpatiza com Bush. "Gosto muito do pai dele e da mãe, Barbara", diz ela. "Nunca tive muito contato com nenhum dos candidatos porque, sabe como é, mesmo sendo do sul, só aparecem aqui rapidamente em época eleitoral para pedir votos", explica. Contato mesmo, a sua família só teve com o presidente de outro país, o general Dutra, cuja foto guardam com carinho. "Meu marido adora contar a história daquele dia em que o presidente brasileiro apareceu aquí, numa caravana de carros, e tirou fotos com os americanos de Brazil, Tennessee."

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