Brasília, 20 (AE) - A capital da República comemora amanhã (21) 40 anos com ameaça à sua reconhecida qualidade de vida. A causa é o crescimento vertiginoso da população nas cidades-satélites. A população hoje totaliza 2,370 milhões, sendo 1,821 milhão no Distrito Federal, e 546,123mil na periferia.
O Plano Piloto - área reconhecida como patrimônio cultural da humanidade pelo Fundo da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) - ainda está dentro da previsão de atingir este ano a marca de 600 mil habitantes. A explosão demográfica ocorreu na periferia. Ela inchou de tal forma que loteamentos como Recanto das Emas e Riacho Fundo acabaram ganhando perfil de cidade-satélite.
Segundo pesquisa sobre a Caracterização e Tendências da Rede Urbana do Brasil, a região periférica do Distrito Federal (que engloba dez municípios de Goiás) teve crescimento populacional de 16,30% nos últimos 15 anos. Entre 1991 e 1996, a população cresceu 7,56%, ante os 8,13% do período de 1980 a 1991. A pesquisa foi realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Núcleo de Economia Social, Urbana e Regional da Universidade de Campinas (Unicamp).
A migração da população pobre para a periferia está associada à regularização do uso do solo, segundo a arquiteta Diana Meirelles Mota, do Ipea, que participou da pesquisa. No caso do Distrito Federal, segundo Diana, isso se deve, em grande parte, ao impacto de políticas de gestão territorial e da situação fundiária que influenciou a oferta de habitação.
O superintendente regional do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Marcelo Brito afirma que "esse adensamento, quase um estiramento, é prejudicial e pode levar à ingovernabilidade, a médio e longo prazos". Apesar de algumas-cidades satélites, como Taguatinga e Ceilândia, já estarem mais estruturadas, a pressão em cima do Plano Piloto ainda é elevada. Segundo o superintendente, a pressão não se origina apenas nas satélites, mas também nas cidades goianas situadas no entorno do Distrito Federal, que acabam virando dormitório.
Se por um lado o superintendente do Iphan considera o projeto de Brasília vitorioso, sob o ponto de vista de levar o desenvolvimento para o interior do País, por outro ele prevê problemas muito sérios num curto prazo de tempo por causa da crescimento exponencial do Distrito Federal (DF) e entorno. Um deles é o de abastecimento de água, que já está levando os governos do DF e Goiás a discutirem a construção da hidrelétrica Corumbá 4 para garantir o fornecimento de água e também de energia elétrica.
Para Diana, Brasília precisa assumir uma nova orientação para seu desenvolvimento econômico e urbano. "Isso deve ocorrer porque a cidade tende a consolidar-se, com Goiânia, como importante núcleo de polarização do Brasil Central", diz a arquiteta do Ipea. Hoje, Brasília é o maior importante centro consumidor do Centro-Oeste, além de apresentar o maior PIB nominal per capita do País: R$ 11.600.
Outra questão que necessita de cuidados especiais é o transporte público. Os deslocamentos são cada vez maiores. "As pessoas gastam muito tempo do seu dia no deslocamento, o que cria dificuldades para o viver urbano", adverte Brito, apontando ainda a questão ambiental como mais um problema a ser vencido.
Mais construções significam mais esgoto. "As pessoas fazem fossas, nem sempre sépticas, que passam a ser mais fossas negras por poluírem os níveis freáticos do solo", afirma. Na avaliação de Brito, mananciais da região tendem a ficarem comprometidos.
Brito avisa que todos esses elementos acabam interferindo na qualidade de vida urbana dos brasilienses, um dos motivos do tombamento do Plano Piloto como patrimônio da humanidade.
Ainda há o reflexo social. Brito observa que ver pessoas que não podem ter acesso a serviços básicos acaba criando problemas de marginalidade social, violência urbana e problemas relacionados à questão econômica. "É necessário responder à seguinte pergunta: a população vai viver de quê? Gente demanda serviços."
Para Brito, é um erro estimular a migração para a cidade com doações de lotes sem que, em contrapartida, se aponte sua base econômica. "Qual é a vocação dessa região, ela vai desempenhar suas funções de que forma?", pergunta.
Descentralização - O Iphan tem pedido ao GDF que trace um plano diretor para a cidade, para evitar colapsos futuros, como o da malha viária. Por isso, o Iphan condicionou a construção da terceira ponte do Lago Sul à solução viária que impeça o congestionamento do trânsito atrás da Praça dos Três Poderes Poderes - onde estão o Congresso Nacional, Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. A ponte está em licitação e ligará o bairro nobre ao centro da cidade.
Brito diz ser necessário abrir novas zonas em que o morador possa conseguir emprego e ter acesso a serviços básicos. Observa que Estados e municípios têm responsabilidades específicas em matéria de desenvolvimento urbano. Mas um espera a ação do outro e a população fica sem saneamento básico, escolas, hospitais e segurança pública.

mockup