Lúcio Flávio Moura
Enviado a San Alberto
Especial para a Folha
A possibilidade de um conflito armado entre campesinos (sem-terra paraguaios) e brasiguaios deve aumentar hoje com a previsão da chegada de milhares de manifestantes de outros municípios à praça principal de San Alberto (88 quilômetros ao norte de Foz do Iguaçu), no departamento de Alto Paraná, leste do Paraguai.
Há cinco dias, os campesinos impedem o prefeito Romildo Maia de Souza e 12 funcionários municipais de trabalhar, bloqueando a entrada da prefeitura.
Os 300 manifestantes, que cobriram a fachada do prédio com faixas de protesto, estão acampados em sete grandes barracas, de onde garantem que só saem em caso de renúncia do prefeito ou de intervenção federal no município.
Eles acusam Souza de desviar recursos e de má administração do orçamento municipal. ‘‘O prefeito é corrupto e autoritário. Dirige o município como se fosse sua empresa’’, relata Arnaldo Gonzáles, um dos cinco vereadores de oposição e um dos líderes da manifestação.
Ontem, uma rádio pirata foi usada para arregimentar mais campesinos acampados na região leste do Paraguai. ‘‘Vamos trazer 10 mil paraguaios sem-terra para San Alberto e expulsar Romildo de nossa cidade’’, ameaçava o locutor.
‘‘O prefeito está sofrendo preconceito por ser um brasileiro naturalizado’’, afirma Roberto Ribas, um chileno que há 15 anos administra os negócios dos Souza, família de brasileiros que vive no Paraguai desde o final da década de 60.
Ameaçado de morte, Romildo Souza - único prefeito brasileiro do Paraguai - está buscando ajuda em Ciudad del Este, capital de Alto Paraná. Anteontem, depois de um encontro de duas horas com cinco deputados, o prefeito conseguiu o apoio da bancada federal do departamento (equivalente a Estado).
Os deputados devem levar a questão a Assunção, para tentar uma saída pacífica para o conflito. ‘‘Infelizmente não podemos contar com nossa diplomacia, que está ciente da situação e não tomou nenhuma providência’’, lamenta Siloir da Silva, vereador brasileiro que vive em San Alberto há 27 anos.
Na segunda-feira, um ato organizado por comerciantes e fazendeiros brasileiros (90% dos 22 mil habitantes do município são brasiguaios) contou com a presença de 2 mil pessoas. ‘‘Estamos nos organizando para que não haja conflito, mas se formos ameaçados, vamos reagir’’, promete Isalino Thomé, vereador, fazendeiro e dono de uma madeireira em San Alberto.
Através das transmissões da emissora de rádio local, o prefeito divulgou uma nota oficial, pedindo que os comerciantes mantenham seus estabelecimentos fechados e que os moradores evitem transitar nos arredores da praça tomada pelos campesinos.Campesinos ocupam praça para protestar contra a presença de brasiguaios e exigir renúncia de prefeito, que é brasileiro
Ney de SouzaTensãoCampesinos, os sem-terra paraguaios, na praça principal de San Alberto, impedem o prefeito Romildo Maia de Souza (no detalhe) e 12 funcionários municipais de trabalhar, bloqueando a entrada da prefeitura. Os manifestantes aguardam para hoje a chegada de outros agricultores

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