Buenos Aires, 24 (AE) - Empresas brasileiras instaladas na Argentina, que importam frangos provenientes do Brasil, vão recorrer à Justiça para suspender a decisão judicial que restringiu a entrada de frangos brasileiros no país. A decisão foi tomada esta semana pelo juiz federal Juan Papetti, que a pedido dos produtores argentinos de frangos, determinou o limite de entrada de uma cota de 3.742 toneladas mensais. Em uma evidente medida contra o principal sócio do Mercosul, o juiz determinou o impedimento da entrada de frangos brasileiros, mas não de outros países.
Os produtores locais alegam a existência de dumping nos frangos brasileiros, além de sustentar que está havendo uma "invasão" dessas aves do Brasil, e que estão causando "danos" à indústria nacional. A medida causou imediatamente o impedimento da entrada de 25 caminhões que transportavam frangos brasileiros, e trouxe de volta tensões entre os dois países, que haviam amainado após a guerra comercial de agosto e setembro.
Se a medida judicial argentina prevalecer por mais de dez dias, a Sadia será prejudicada em US$ 2 milhões. A afirmação foi feita por Raúl Marinangelo Jr., gerente regional Mercosul da empresa brasileira, que explicou que a maior parte das entregas precisa ser feita antes da segunda semana de dezembro, quando começam as grandes compras de Natal.
Instalada na Argentina, a Sadia é responsável por 36% do total das importações de frangos provenientes do Brasil. No total, calcula-se que as empresas brasileiras e argentinas importadoras de frangos brasileiros seriam prejudicadas em US$ 6 milhões.
Marinangelo Jr. afirmou que a decisão do juiz Papetti "fere" o livre comércio dentro do Mercosul. Segundo Marinangelo Jr., a suspeita de dumping foi descartada pela própria Comissão Nacional de Comércio Exterior da Argentina, e o que está sendo investigado é a existência de dano à indústria local.
O representante da Sadia disse que ao contrário do que está sendo alegado pelos produtores argentinos, as importações de frangos do Brasil caíram 11,4% entre janeiro e agosto deste ano, comparado com o mesmo período do ano passado. "Não está havendo invasão", disse, e sustentou que embora as vendas tenham passado de 5.776 toneladas em agosto, e passado para 5.700 toneladas em setembro, o crescimento se deve "ao natural aumento do consumo nos últimos meses do ano".
Segundo um relatório da Sadia, baseado em dados do governo argentino, entre janeiro e agosto, os frangos brasileiros ocuparam 6,40% do mercado argentino, proporção inferior aos de 1997 (6,7%) e 1998 (8,74%). Estava previsto que entre o fim do dia de hoje e amanhã fosse realizado um pedido formal à Justiça argentina por parte dos brasileiros. Entre os enviados especiais para resolver a crise, está em Buenos Aires Cláudio Martins, diretor-executivo da Associação Brasileira de Exportadores de Frango (ABEF). Amanhã as partes em conflito se reunirão em audiência pública para uma tentativa de conciliação.
Além da ação judicial, os empresários brasileiros não descartam a busca de apoio institucional: neste caso, seria pedido apoio ao governo do Brasil para que fossem tomadas medidas de pressão. Os empresários também estão sendo apoiados pelo Grupo Brasil, associação que reúne as 193 empresas brasileiras instaladas na Argentina. Elói de Almeida, presidente do Grupo, afirma que uma das formas de pressão poderia ser que juízes brasileiros também impedissem a entrada de produtos argentinos no País, argumentando que existe sobre-estoque. Além disso, também poderiam ser aplicadas as restrições previstas a 400 produtos argentinos, que não chegaram a ser colocadas em ação em agosto, no meio da intensa crise comercial ocorrida na época entre os dois países. Almeida considera que a decisão de restringir a entrada de frangos do Brasil, "aumenta a insegurança jurídica no Mercosul".

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