Brasileiros preparam vacina contra micose que mata
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quinta-feira, 09 de março de 2000
Por Simone Biehler Mateos 
São Paulo, 10 (AE) - Pesquisadores brasileiros conseguiram identificar uma proteína que promete ser a base para uma vacina eficaz, com efeitos preventivos e terapêuticos, contra a mais mortal de todas as micoses sistêmicas, a paracoccidioidomicose (PCM). Apesar do nome estranho, a PCM é comum na América Latina, sobretudo no Brasil, onde apresenta níveis de mortalidade comparáveis aos das grandes endemias nacionais, como tuberculose, malária, sífilis, hanseníase e mal de Chagas.
Um estudo feito no Rio entre 1980 e 1995 apontou a PCM como a oitava causa de mortalidade entre as doenças infecciosas. Isso significa que essa micose, que se infiltra pelos pulmões, podendo atingir vários outros órgãos internos e até o sistema nervoso central, é responsável, a cada ano, por quase 1,5 morte por milhão de habitantes.
"Mas a doença tem um impacto social muito mais amplo do que o expresso por essa taxa de mortalidade, porque, como a tuberculose, ela afeta a capacidade de trabalho e a qualidade de vida de um número muito grande de pessoas", frisa o médico Luiz Rodolpho Travassos, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Cicatrizes - Nos casos agudos, a doença, provocada por um fungo que se instala no pulmão, ganha o sistema linfático e ganglionar, podendo espalhar-se por diversos órgãos internos e, mais raramente, até infectar o sistema nervoso central. O mais comum, porém, é o fungo, a partir do sistema linfático, instalar-se na pele, onde provoca lesões que podem acarretar cicatrizes permanentes. Nos casos crônicos, a PCM fica circunscrita ao pulmão, tendo manifestações semelhantes às da tuberculose.
Estima-se que a América Latina tenha cerca de 10 milhões de pessoas infectadas. Apenas o Brasil é responsável por mais de 80% desses registros da doença.Por isso, um grupo de 17 pesquisadores da área de medicina biomolecular da Unifesp e da Universidade Federal de Minas Gerais, sob a coordenação de Travassos, decidiu dedicar-se ao estudo dos mecanismos imunológicos contra a doença, tendo em vista o desenvolvimento de uma vacina.
Reação - O primeiro passo foi identificar quais antígenos (proteínas capazes de provocar reações no sistema imunológico) do fungo causador da doença produziam a reação imunocelular, um mecanismo de defesa distinto da produção de anticorpos, inócuos no caso da PCM.
A reação imunocelular consiste na fabricação de linfócitos, células que identificam o fungo e ativam contra ele outras células de defesa do corpo: os macrófagos, guerreiros que devoram o invasor. Na maioria das pessoas, essa reação é eficiente contra a doença, daí a PCM só manifestar-se num limite baixo de infectados - entre 1% e 2% dos infectados.
A intenção dos cientistas é usar o antígeno isolado para superestimular o sistema imunológico, com o objetivo de provocar essa reação nas pessoas nas quais ela não ocorre naturalmente ou é insuficiente."Isso seria crucial, não para promover vacinações em massa, mas para tratar pessoas que têm a doença em estágio muito avançado, quando a reação celular é nula e o tratamento com antibióticos se torna lento e difícil", explica Travassos.
O processo é semelhante ao da vacina autógena empregada como tratamento coadjuvante em certos tipos de câncer. Células cancerosas são retiradas da pessoa doente, reproduzidas in vitro
mortas por irradiação e reintroduzidas no paciente para estimular seu sistema imunológico contra o câncer.
No caso da PCM, era essencial identificar qual molécula protéica específica produzia a reação imunocelular. Isso porque o antígeno bruto (a sopa de todas as proteínas eliminadas pelo fungo que provocam reações imunológicas) pode conter substâncias capazes até de piorar a doença.


