Brasileiros pesquisam forma de prevenir Alzheimer
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de outubro de 1999
Por Lígia Formenti 
São Paulo, 08 (AE) - Pesquisadores brasileiros estão estudando uma proteína que pode ser a chave para a descoberta do tratamento preventivo contra o mal de Alzheimer e a esquizofrenia, doenças mentais que afetam mais de 3 milhões de pessoas no País. Trata-se da fosfolipase A2 (PLA2), enzima presente na membrana de todas as células do organismo. Os cientistas acreditam que alterações na atividade dessa substância possam estar relacionadas ao aparecimento das duas doenças.
"Caso essa hipótese esteja correta, será possível tentar evitar que as doenças se desenvolvam com a correção da atividade da PLA2", adianta o chefe do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,Wagner Gattaz. Mas, até lá, alguns enigmas ainda precisam ser decifrados. Para isso, as investigações sobre as alterações da proteína e suas consequências estão sendo feitos por diferentes áreas da ciência: desde biologia e genética molecular até experiências com animais.
As pesquisas com a PLA2 constituem o principal trabalho do Laboratório de Investigações Médicas em Neurociências, recém-inaugurado no Departamento de Psiquiatria da USP. "O financiamento de R$ 1,8 milhão feito pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo foi fundamental nesse trabalho"
diz Gattaz.
Placa senil - O psiquiatra Homero Vallada Filho, coordenador da área de genética molecular do laboratório, explica como a PLA2 está relacionada com o mal de Alzheimer. Pacientes com a doença apresentam no cérebro uma formação conhecida como placa senil. O surgimento dessa placa é antecedido por uma substância conhecida com beta-amilóide. "E esta, por sua vez, está ligada à baixa atuação da PLA2", conta.
Várias pistas ainda precisam ser investigadas. "Quanto mais estudamos o mal de Alzheimer, mais fica constatado que ele é provocado por mais de um fator", diz. "Com o tempo, teremos diagnósticos precisos e, dessa forma, poderemos tratar de forma específica cada paciente."Estudos sobre a doença estão sendo feitos sob vários ângulos. "Queremos descobrir também quais as causas que levam a essa alteração na PLA2", diz.
Pesquisas semelhantes envolvem a esquizofrenia - doença que afeta cerca de 1% da população, geralmente adultos jovens. Pessoas com o distúrbio apresentam delírios, apatias e isolamento social. "Ainda sabemos pouco sobre esse mal", afirma Gattaz. "Mas acreditamos que, embora os sintomas surjam apenas na juventude, o problema pode ter começado muito antes, provavelmente na vida intra-uterina, com o início da formação do cérebro."Essa descoberta indica que as terapias podem começar muito mais cedo - antes mesmo do surgimento dos sintomas.
Formação - O psiquiatra lembra que a formação do cérebro termina somente aos 18 anos, em média. No primeiro ano de vida, ocorre um desenvolvimento extremamente acelerado. A partir dos 18 meses, várias conexões nervosas passam a ser eliminadas seletivamente. Isso termina somente na juventude, época em que a doença aparece. "Essa coincidência nos leva a crer que a doença surge depois do cérebro formado", afirma Gattaz.
Não é só. De acordo com o psiquiatra, pacientes com esquizofrenia trazem o lobo frontal atrofiado em alguns pontos e uma hiperatividade no sistema límbico. A primeira região é responsável pela afetividade e a segunda, pelo surgimento de alucinações e delírios. Gattaz estuda a relação entre PLA2 e esquizofrenia há bastante tempo. O professor explica que a enzima controla o metabolismo da membrana celular. Esse metabolismo determina as propriedades fisico-químicas dos neurônios, como a transmissão de sinais e o número de receptores. Quando esse processo ocorre de forma desgovernada, toda a arquitetura das célula acaba sendo modificada. "Com isso
o sistema de comunicação entre as células também é afetado."
Num estudo feito pelo professor já foi demonstrado que, nos pacientes com esquizofrenia, a ação da PLA2 está acelerada. Nas pesquisas feitas no Laboratório de Neurociências são avaliados os efeitos de injeção de PLA2 em ratos. "Os estudos já demonstram que a enzima inibe a atividade dopaminérgica", conta Gattaz. "Esse processo pode estar relacionado com a esquizofrenia."
Também estão sendo feitos estudos com famílias de pessoas com esquizofrenia e mal de Alzheimer, levantamentos epidemiológicos e análises da atividade elétrica do cérebro. O equipamento de eletroencefalografia digital, de alta resolução, utilizado no laboratório é o único existente na América Latina.


