Brasileiros desenvolvem vacina contra tuberculose
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quinta-feira, 22 de julho de 1999
Por Simone Biehler Mateos 
São Paulo, 23 (AE) - Cientistas brasileiros desenvolveram uma vacina gênica contra tuberculose que, em cobaias, mostrou-se capaz de prevenir e curar a doença, eliminando a infecção até em camundongos contaminados com cepas do bacilo resistentes a todas as drogas usadas atualmente em seu tratamento. A vacina, feita a partir de fragmentos do DNA da bactéria, induz o sistema imunológico a destruir o bacilo e não produziu nenhum efeito colateral nas cobaias. Os testes em seres humanos devem começar dentro de seis a oito meses e, em dois anos, os cientistas estimam que a vacina já possa ser produzida em larga escala. Barata e de fácil conservação, a vacina deverá reduzir muito o tempo e o custo do tratamento.
A descoberta é vital. Desde que ressurgiu, há cerca de uma década, a tuberculose não pára de crescer e multiplicam-se as cepas de bacilos resistentes. A cada ano, cerca de 3 milhões de pessoas morrem da doença no mundo. O Brasil é o quarto país no ranking mundial: a cada ano são notificados cerca de 85 mil novos casos e 6 mil mortes pela doença. A única vacina usada para prevenir a doença, a BCG, tem eficácia muito baixa (de zero a 60% de proteção, dependendo da população), embora no Brasil venha sendo eficaz contra as variedades mais graves da doença.
A nova vacina foi desenvolvida por Célio Lopes Silva, farmacêutico especializado em imunologia e microbiologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a pesquisa foi publicada na semana passada pela revista Nature (uma das mais renomadas publicações científicas do mundo), numa reportagem que repercutiu na imprensa do mundo todo.
Silva estima estima que a nova vacina permitirá reduzir o tempo de tratamento da doença, de seis meses para dois meses. Isso, ao lado da eliminação dos efeitos colaterais desagradáveis do tratamento com drogas, reduzirá os altos índices de abandono do tratamento (40%), fator apontado como uma das causas do desenvolvimento de cepas resistentes às drogas. Todas as vacinas gênicas já desenvolvidas (contra aids, hepatite B e malária) estão ainda em fase de testes, nenhuma delas foi experimentada, porém, como tratamento.
A Fapesp, responsável por 90% do financiamento, investiu na pesquisa cerca de R$ 700 mil até agora e deverá desembolsar outros R$ 3 milhões nos próximos anos. "O desenvolvimento de uma única droga para o tratamento da tuberculose consome cerca de US$ 700 milhões", compara Silva, que calcula que a vacina deverá ser tão barata de produzir como a BCG, que custa cerca de US$ 0,15 por dose.
Anticorpos - A grande dificuldade das vacinas disponíveis contra a tuberculose deve-se ao fato de o bacilo da doença alojar-se e multiplicar-se dentro das células do corpo, onde estão protegidos da ação dos anticorpos. Só os linfócitos citotóxicos TCD8 (que fazem parte da imunidade celular) são capazes de identificar as células contaminadas e destruí-las. O problema é que as vacinas convencionais mostravam-se pouco eficientes para estimular a produção desses linfócitos no organismo.
Criada em 1921 e usada até hoje, a BCG (Bacilo Calmette-Guérin) inocula no organismo uma variante atenuada do bacilo da tuberculose com seus milhares de antígenos (proteínas que estimulam a produção de anticorpos e de outros mecanismos de defesa do organismo, como os linfócitos).
A grande quantidade de antígenos, entretanto, confunde o sistema imunológico fazendo com que, num porcentual alto dos casos, sejam produzidos linfócitos que não funcionam. Posteriormente, desenvolveu-se uma vacina de segunda geração, que, em vez do bacilo atenuado, inocula apenas um antígeno que a bactéria produz. No caso da BCG, essa vacina mostrou-se inútil porque só induz a fabricação de anticorpos, que não atacam os bacilos dentro das células.
No caso das vacinas de DNA (o ácido desoxirribonucléico, que contém a informação genética do organismo), inocula-se não o antígeno, mas um pedaço do DNA do bacilo responsável pela produção de determinado antígeno. Esse fragmento selecionado de DNA é combinado com outra pequena sequência de DNA produzida por engenharia genética. Essa sequência extra serve para que as células reconheçam o DNA do bacilo, ou seja, para que entendam a mensagem do DNA estranho e possam cumprir a ordem codificada ali
produzindo o antígeno desejado.
Engenharia genética - Essa pequena peça de engenharia genética, conhecida como plasmídeo, aloja-se dentro das células, onde comanda a produção de antígenos que vão estimular a fabricação de linfócitos - capazes de destruir as células contaminadas com o bacilo e o próprio vacilo - e de anticorpos, eficazes no caso de bacilos que ainda não se alojaram em células ou que escaparam de alguma célula recém-destruída.
Desde 1994, a equipe de Silva testa diferentes fragmentos de DNA para descobrir aquele que codifica o antígeno mais eficiente para a vacina. No final, a vacina mostrou eficácia total em camundongos. As cobaias vacinadas eliminaram os bacilos nelas inoculados. A proteção contra a doença permanecia até 15 meses: "Isso transposto ao ser humano equivaleria a 60 anos de proteção", diz Silva, otimista.
O sistema imunológico apresentou uma resposta tão eficaz que Silva decidiu testar a vacina como tratamento para a doença, passando a provar seus efeitos em camundongos previamente contaminados com a tuberculose. O resultado foi a cura total das cobaias, mesmo no caso daquelas que apresentavam a doença em estágios avançados ou já disseminada por todo o organismo.
Silva calcula que, dentro de seis a oito meses, poderá testar os efeitos terapêuticos da vacina, inicialmente, num grupo de cerca de 50 pacientes que têm cepas do bacilo resistentes a todas as drogas conhecidas. "São pessoas que não tem nenhuma alternativa de tratamento", diz Silva.


