São Paulo, 18 (AE) - A lista de presidentes e vice-presidentes brasileiros em multinacionais, sucedendo a executivos estrangeiros, tem crescido nos últimos tempos.
A mudança se deve à ampla disponibilidade de executivos brasileiros bem preparados, frequentemente pela próprias multinacionais, para aproveitar a oportunidade. O headhunter Winston Pegler, da Ray&Berndtson, tem conseguido três posições por ano para presidentes brasileiros em multinacionais. Parece pouco, mas não é. Considere-se que há pelo menos oito consultorias internacionais com plenos poderes de captar e preencher esse tipo de cargo em São Paulo. Isso sem contar as indicações diretas, que não passam pelas redes sigilosas dos headhunters. "Os casos de busca são sempre novos", observa Pegler. Ou seja, não se tratam de substituições de profissionais. "O número de processos aumenta gradativa e constantemente." Essa sinalização, segundo ele, revela a maturidade das multinacionais e dos novos modelos de gestão, que dão prioridade a equipes locais, semi-independentes e focados numa estratégia global de negócios.
A virada nesse sentido se deu há cerca de dez anos com os precursores Anselmo Nakatoni, da Furukawa, Alain Belda, da Alcoa, e Hermann Wever, da Siemens. "As multinacionais percebem que a dinâmica dos negócios é tão grande, que exige pessoas capazes e com domínio da cultura", ressalta Pegler.
Com pano de fundo semelhante a esse, Norberto Fatio chegou ao cargo máximo da Fleischman Royal Nabisco, há um ano e meio. Tornava-se, assim, o primeiro brasileiro a assumir a posição - na época, ocupada por um inglês - em 68 anos da empresa no Brasil.
Pela primeira vez, também, na primavera de 1997, a Nestlé aprovou o nome de um brasileiro, Ricardo Gonçalves, para substituir o então diretor-presidente, o suíço Roland Meyes. Um ano antes, fenômeno igual se repetiria na Philips, onde Marcos Antonio Magalhães assumiu o comando para a América Latina. Ao ocupar a cadeira do holandês Frans Sluiter, Magalhães tornou-se o primeiro brasileiro no cargo em 70 anos de atividade da Philips no País. Natural de Recife, Magalhães costuma brincar que se não houvesse ocorrido a invasão holandesa, numa referência histórica à sua origem e à da Philips, essa sucessão não seria possível. João Ney Colagrossi Filho foi nomeado vice-presidente da Svedala do Brasil - fabricante de equipamentos para a construção civil e mineração - para a América Latina. Colagrossi é sinônimo de mais uma estréia em função só exercida, até então, por americanos e europeus.
Opção - Os casos desses executivos não são isolados. "As empresas estão optando por brasileiros por conhecerem melhor o comportamento das pessoas, dos negócios", avalia Fatio
da Nabisco, complementando que, para um estrangeiro adquirir tal conhecimento levaria algum tempo. Segundo ele,além das percepções sobre a concorrência, fornecedores, clientes, o brasileiro está mais bem qualificado. "Não é à toa que o número de brasileiros fazendo MBA no exterior mais que triplicou", observa Alfredo Assumpção, sócio-presidente da Financial Executive Search Associates (Fesa). Para o vice-presidente da Divisão Agrícola da Case, Mário Hirose, a escola foi a carreira internacional. Antes de ocupar o cargo atual, presidiu a Valmet no Sul da Europa e atuou na Finlândia.
Para o presidente da Nabisco, o que determina a naturalidade do executivo para esse nível é a conveniência do momento com o perfil adequado, aliados à filosofia da empresa. Some-se a isso a reputação internacional do executivo nacional de achar soluções de forma mais versátil. "Também aceitamos o estrangeiro com mais facilidade entre nós", complementa Fatio.
Escolhido nessa conjunção, Fatio chegou para recolocar a Nabisco nos eixos. Na época, a empresa não tinha uma gestão adaptada à economia estável e se distanciava do mercado. "Não se estavam valorizando as marcas". Com Fatio, a companhia, em vez de organizada por divisões, passou a atuar por processos, para se aproximar do atendimento e do mercado. Resultado: "Estamos crescendo em moeda local 5% ao ano", diz.
A Singer, de capital canadense e acionistas chineses, está desde fevereiro experimentando uma gestão de colegiado. Sondagens de candidatos à vaga foram feitas por headhunters. O argentino Victor Carelli, último a ocupar o posto, dizia que um brasileiro deveria preenchê-la. Ele abriu espaço ao atravessar a Rodovia Santos Dumont, em Campinas (SP), para presidir a Dako.

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