Brasileiro vítima de skinheads pede asilo nos EUA De Renan Antunes de Oliveira, Especial para a AE
Nova York, 21 (AE) - A Corte de Imigração de São Francisco, na Califórnia, em audiência prevista para o dia 20 de março, vai decidir sobre a concessão de asilo para o bancário brasileiro Joaquim de Abreu, 43 anos, vítima de um atentado cometido por quatro skinheads em São Paulo, em 1987. Ele é garçom num restaurante e milita no movimento gay da cidade.
No pedido de asilo, os advogados de Abreu descrevem o Brasil como "uma sociedade homofóbica que não pode garantir a segurança dos cidadãos". A juíza Beverly Philips aceitou a inclusão nos autos de um relatório sobre o assassinato de Édson da Silva, morto por skinheads dia 6 na Praça da República, para subsidiar sua decisão. O pedido de asilo é bancado pela Comissão de Direitos Humanos da influente ong americana International Gays and Lesbians.
Abreu disse hoje que pediu asilo porque tem medo de voltar ao Brasil: "Lá, o assassinato de gays é uma coisa comum, rotineiramente ignorada pelas autoridades. Eu fui espancado várias vezes e até ameaçado de morte, mas nas vezes em que dei queixa polícia nada foi feito".
O encontro dele com os skinheads: " Foi em setembro de 1987, uma noite quente demais para aquela época do ano. Eu vinha caminhando pela rua Humaitá, de bermuda e camiseta, quando fui atacado por um grupo de quatro jovens da gangue Carecas do ABC. Na época eles ainda não eram chamados de skinheads, mas a violência era a mesma. Meus agressores eram muito jovens, nunca foram identificados".
Abreu conta que foi "golpeado, chutado, no rosto e pelo corpo, fiquei sangrando na rua. Havia gente por perto, mas ninguém fez nada para me defender, nem para me ajudar. Fui na polícia dar queixa, mas só recebi novos maus tratos. Não fui notificado se houve investigação, eu creio que a polícia da época era conivente".
O bancário conta que em consequência das agressões sofreu uma fratura no crânio - hoje, ele tem uma cicatriz de cinco centímetros na nuca.
Abreu usa o cabelo raspado com navalha, o que evidencia ainda mais a marca da fratura. "Não adianta esconder, é uma coisa que não se pode apagar".
Abreu trabalhou nove anos como caixa do banco Itaú, em São Paulo. "No trabalho, eu tinha uma relação cordial com os colegas, uma vida normal, no sentido sem preconceitos que se dá a essa palavra. Mas quando eu saia à noite, minha orientação sexual parecia ofender muita gente".
O pedido de asilo de Abreu tramita em sessão pública na justiça americana, ao contrário da maioria dos casos do gênero. Isso se deve um pouco ao clima de São Francisco, uma cidade de conhecida tolerância com o orientação sexual de seus habitantes. A ong que o apóia está usando a estratégia de mostrar os casos de violência contra gays que ocorrem no Brasil.
Além do caso de Edson, o pedido de Abreu inclui documentos dos assassinatos de Evangelista de Melo, ocorrido no Rio em 1982, Américo da Silva, Alaíde dos Santos e Cláudio Rodrigues, ocorridos entre 1986 e 1987, em São Paulo, onde Rodrigues era um dos fundadores do movimento gay. Nenhuma das mortes foi esclarecida. "Na época em que esses crimes ocorreram, a imprensa dava pouca cobertura aos casos. Hoje a sociedade brasileira está mais aberta, mas ainda existe muita homofobia".
Abreu vive em São Francisco desde 1990. Ele ainda tem família e um apartamento em São Paulo, mas não quer voltar: "Isso aqui é o paraíso.
Em 10 anos na cidade, nunca sofri nem um susto, nem discriminação. No Brasil, em nove anos de São Paulo, cansei de apanhar e ser humilhado na rua. Apanhava da polícia, apanhava dos carecas, era violência e mais violência. Pra mim, chega".





