Brasileiro quer falar sobre atentado da Amia com argentinos
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quarta-feira, 28 de julho de 1999
Por Ariel Palacios 
Buenos Aires, 29 (AE) - Wilson dos Santos, uma das principais testemunhas sobre o atentado à associação beneficente judaica AMIA, declarou que pretende falar com o governo argentino e as lideranças da comunidade judaica. No atentado, realizado em 1994, morreram 86 pessoas e outras 300 foram mutiladas e feridas. Até agora não foram descobertos os autores do atentado, e o brasileiro poderia a única fonte de pistas que esclarecessem o caso.
Santos, um polêmico e estranho personagem que o governo argentino suspeita ter sido agente de algum órgão de inteligência brasileiro, mas que alegava ser garoto de programa, avisou os consulados da Argentina, Brasil e Israel com 15 dias de antecedência que o atentado contra a AMIA iria ocorrer.
Em uma fita de vídeo enviada ao Ministério do Interior, Santos aparece em pé, vestido com uma camiseta branca e um abrigo de ginástica em uma churrascaria brasileira, acompanhado por um ex- agente da Side (serviço secreto argentino). "Eu, Wilson Roberto dos Santos, estou aqui com Mário Aguilar Rissi, e estou disposto a fazer uma declaração ao governo argentino e ao presidente da comunidade israelense". Na fita, Santos não esclarece se a declaração seria no Brasil ou na Argentina. Ao seu lado, Rissi faz um gesto para cortar, e ouve-se a voz do cinegrafista, dizendo que "agora ficou bem".
Segundo fontes diplomáticas, Mario Rissi pediu ao governo argentino US$ 105 mil "pelos gastos da fita e filmagem". No entanto, o jornal "Página 12", explica que seria Santos quem teria solicitado essa quantia em parceria com Rissi.
Rissi é um controvertido personagem: nos anos 80 foi integrante do serviço secreto da Polícia Federal argentina. Encarregado de investigar o sequestro do empresário Osvaldo Sivak, Rissi acabou extorquindo a esposa do empresário. Sivak criava pistas falsas e pedia dinheiro à esposa de Sivak para pagar os sequestradores, que nunca receberam nada, e que acabaram matando o empresário. Rissi esteve preso durante seis anos, e ao sair da prisão disse "já paguei minha dívida com a sociedade".
A fita está nas mãos do juiz Adolfo Bagnasco, que substitui por férias o juiz Juan José Galeano, o encarregado do caso. Uma cópia foi entregue pelo Ministério do Interior ao embaixador brasileiro Sebastião do Rego Barros.
Santos já foi interrogado pela Justiça argentina em Brasília, que somente extraiu dele uma série de contradições. O governo argentino anunciou publicamente no ano passado que pediria a extradição do brasileiro, mas até agora não tomou as medidas legais necessárias para isso.
A Justiça brasileira está investigando se ele pertenceu a algum serviço secreto, como acusam os argentinos. Santos não poderia ter participado do SNI, que já estava extinto na época do atentado. As acusações argentinas nunca se transformam em cartas rogatórias, e por isso, os hipotéticos vínculos com serviços de inteligência não podem ser confirmados.


