Nova York, 02 (AE) - O empresário brasileiro José Germano Neto, dono de uma revenda da BMW no Rio, foi condenado a 12 anos de prisão pela Justiça francesa com base numa denúncia falsa da seção brasileira da Interpol, a polícia internacional.
Ela informou indevidamente aos franceses que Germano era traficante - da Favela da Vila Vintém, morro carioca. O brasileiro está preso nos Estados Unidos desde 4 de setembro de 1998, aguardando extradição pedida pelo Tribunal de Paris.
Germano é acusado de fornecer 80 quilos de cocaína a uma quadrilha parisiense, em 1991. A droga nunca foi achada. A Polícia Federal usou sua prisão como motivo para devassar seus negócios. Prenderem até sua mulher, a leiloeira pública Zalfa Nassar. Depois de 70 dias de cadeia e de sofrer um aborto, Zalfa foi solta.
Agora, no processo de extradição, a Procuradoria-Geral da França surpreendentemente informou que "enquanto o réu não apresentar defesa, não pode dizer se é inocente ou culpado". Nos bastidores, diplomatas brasileiros tentam ajudar Germano - o Itamaraty não quer envolver-se publicamente.
A prisão de Germano ocorreu quando ele tomava uísque com amigos no Hotel Sheraton, em Manhattan, durante coquetel da BMW a concessionários brasileiros. Usando sapatos de US$ 140,00 e calça feita sob medida, ele saiu da reunião num camburão.
Hoje, Germano é o prisioneiro 44225-054 da cadeia de Ottisville, a 120 quilômetros de Nova York. Seus únicos pertences são um uniforme verde e um par de botas velhas. Sua ocupação, além de fazer a faxina na cozinha da cadeia, é estudar o processo de extradição que enfrenta na Corte Criminal de Manhattan. O Departamento de Estado tenta enviá-lo à França. O processo vai longe. O resultado é imprevisível.
Esse carioca de 50 anos talvez nunca tivesse sido preso se não se chamasse José - o nome era a única pista da polícia francesa para chegar ao suposto traficante. Em entrevista, ele admite que era amigo do francês Roland Plegat, condenado por tráfico, mas jura que não sabia de sua atividade. Aponta como origem da confusão a ficha falsa passada pela polícia brasileira. "Estou moral e financeiramente quebrado, tudo porque meu nome é José", queixa-se Germano, que perdeu a concessão da BMW.
O delegado Paulo Ornellas, corregedor da PF no Rio, informou quinta-feira que suspendeu do cargo e pôs sob investigação o delegado Luís Dória, responsável pelo inquérito contra Germano. Aberto depois da prisão do empresário, ele teve como resultado apenas a prisão de Zalfa.
"Após um ano de investigações, nada encontramos contra Germano", disse o novo responsável pelo caso, delegado Aldeir Bório Gonçalves. "Tudo o que temos é a sentença francesa."
O envolvimento de Germano com a Justiça de três países começou em 1991, quando ele esteve na França. A polícia caçava o fornecedor de cocaína de uma quadrilha que agia no restaurante parisiense Les Muses, do qual Germano era cliente.
A dica apontando "um tal José" como fornecedor de drogas oriundas do Brasil partiu de um informante belga. Foi passada a Patrick Downson, da Drug Enforcement Agency (DEA), a agência antidrogas americana. Informados pela DEA, os franceses suspeitaram de Germano, único José brasileiro cliente do restaurante. Só em 1994 eles pediram ajuda ao Brasil. A resposta: "Condenado em 1989 como traficante na Favela da Vila Vintém".
A Justiça da França emitiu uma ordem de prisão internacional, em 1995. Germano foi condenado a 12 anos de prisão, à revelia, em 1996. Só a comunidade da Interpol sabia da ordem de prisão. Germano, porém, tem ficha limpa no Brasil. A PF não sabe dizer quem passou o dado errado.
Em 1998, Germano foi à PF retirar passaporte para viajar e a repartição alertou aos americanos da ordem de prisão. Sua captura foi descrita por diplomatas do Consulado do Brasil como "armadilha montada na PF, com ajuda da BMW".
Segundo um diplomata, a PF agiu assim porque estava convencida da culpa de Germano, mas não tinha provas. A BMW teria atraído o brasileiro para um evento fictício, num acordo com a polícia. A BMW informou que sua participação no caso foi involuntária.

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